sexta-feira, 24 de março de 2017

Resposta ao leitor João Henrique R. dos Santos

Apesar de este blog ter encerrado suas atividades, vez ou outra iremos postar textos abordando comentários deixados por leitores, de modo a esclarecer certas ideias. O leitor João Henrique R. dos Santos deixou um comentário sobre o texto: http://evolucaolgbt.blogspot.com.br/2014/06/a-opiniao-do-imperator-da-amorc.html. O pensamento dele é o seguinte:

A estrutura e os ritos da AMORC deverão sempre estar comprometidos com a orientação primordial de seus construtores. Transcendem ao tempo e expressam as trilhas da ascese, respeitando a condição evolutiva possível a cada um dos microcosmos que empreenderam o caminho das estrelas.

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Julgamos que este pensamento merece um aprofundamento. O argumento subentendido do leitor é que a discriminação que a AMORC faz em relação aos casais homoafetivos baseia-se numa espécie "razões espirituais". Vamos, portanto, por partes. 

O leitor começa dizendo "A estrutura e os ritos da AMORC deverão sempre estar comprometidos com a orientação primordial de seus construtores".

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Bem, essa frase necessita maiores aprofundamentos. Que "orientação primordial" é essa? E quem são estes construtores? Os "mestres cósmicos"? Ou um homem cis membro da classe média branca heterossexual americana, Spencer Lewis?

Historicamente os ritos e ensinamentos da AMORC estão sempre sendo mudados e adaptados de acordo com os tempos. Nos tempos da Antiguidade, as Columbas precisavam ser virgens, o que hoje não é necessário. Antigamente, ex-mestres de Templo recebiam avental azul, o que hoje não procede. Antigamente havia três sons vocálicos que hoje foram retirados. Antigamente os membros novos ficavam nos Pronaos durante um ano antes de ingressar no Templo. Hoje, quando você entra, pode frequentar diretamente o Templo. Isso sem contarmos as pequenas alterações nos ritos que quem entende do assunto vê que de tempos em tempos são efetuadas. 

Além disso, no Manual Rosacruz, elaborado na época de Spencer Lewis, no verbete "Ritual de Matrimônio" consta que a cerimônia representa a união entre duas personalidades-alma; não fazendo, portanto, alusão ao sexo dos nubentes. 

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Assim, o argumento de que a discriminação dos homossexuais obedece a uma "orientação primordial de seus construtores" é desonesto, desinformado e descarado. Eles não incluem casais homoafetivos no Ritual de Matrimônio simplesmente porque não querem. E, principalmente, porque o produto que vendem, um "humanismo universal onde todas as pessoas serão felizes e que devemos amar toda a humanidade" vai até a página dois.

O leitor João Henrique R. dos Santos prossegue: "Transcendem ao tempo e expressam as trilhas da ascese, respeitando a condição evolutiva possível a cada um dos microcosmos que empreenderam o caminho das estrelas."

Trata-se, naturalmente, de uma expressão poética para um determinado sentimento de inspiração que ele supõe ter. Precisamos, no entanto, ter um olhar sociológico sobre este pensamento. 

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O argumento do leitor basicamente diz que a homofobia e a discriminação das famílias homoafetivas se dá com base numa suposta condição evolutiva do "microcosmos" que "empreenderam o caminho das estrelas" (what the fuck???). 

Há duas conclusões possíveis aí. Se ele diz que a AMORC não permite que seus membros homoafetivos possam se casar porque o microcosmos da organização ainda não é "evoluído", podemos concluir que: 1- a ideia de que os casais homoafetivos tem o direito de se casarem é uma evolução; 2- ora, mas se essa ideia representa uma evolução e a AMORC não faz isso porque não é evoluída, logo, o produto que ela vende não é eficiente. 3- Se a AMORC discrimina os casais homoafetivos porque os membros não são evoluídos, isso significa que ela não acredita no produto que ela vende. 

Antes de prosseguir nas reflexões, permita-me o leitor fazer um adendo. Essas afirmações de que a AMORC vende um produto podem chocar alguns, mas é a mais pura verdade. A Ordem Rosacruz AMORC é uma instituição dentre milhares de outras que existem no país e, embora ela não seja parte do agressivo mercado religioso onde evangélicos, umbandistas, maçons, católicos, hare krishnas etc disputam ferozmente novos membros com propagandas, a verdade é que para sobreviver, a instituição precisa de membros e para tal, precisa "vender ideias" que atraiam as pessoas. Não há nada de mal nisso, evidentemente. Mas o fato é que é assim que funciona. Instituições precisam "vender ideias" que atraiam  membros. Algumas o fazem de forma discreta e mantendo certa espiritualidade; outras, no entanto, realizam um proselitismo agressivo, marketings mentirosos e recursos de lavagem cerebral e coesão social para angariar membros (como a ideia de que se você sair da igreja, irá pro inferno). Naturalmente a AMORC não realiza nada disso, mas ainda assim, é uma empresa que precisa vender uma ideia para atrair pessoas se quiser continuar existindo. Não acho que isso "mercantilize" a instituição. Isso é simplesmente a vida real e não tem como fugir dela. Após este adendo, voltemos ao assunto principal. 

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O conceito de "evolução" é muito mais do que uma crença espiritual. Ele é uma cosmovisão de mundo e que traz um horizonte individual e social aos seres humanos. Muitos associam a ideia de evolução ao conceito de reencarnação, mas isto me parece ser o modo como o Ocidente construiu sua relação com a noção de que encarnamos várias vezes, muito influenciado pelo positivismo do século XIX e também pelo darwinismo.  Na Índia, o objetivo da reencarnação não é evoluir, mas sim neutralizar o carma negativo obtido nas vidas anteriores. 

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Durante muito tempo eu acreditei piamente na ideia de que as pessoas têm uma alma e as almas evoluem. Há tempos, no entanto, essa ideia de "evolução" têm me causado certo estranhamento. Bastante estranhamento, por sinal. Isso porque ela é extremamente porosa. Nunca sabemos exatamente onde está a evolução. Do ponto de vista rosacruz, a ideia de evolução transita entre você desenvolver "poderes espirituais" como sair do corpo e ver auras e você desenvolver certas "virtudes da alma", como o altruísmo, o amor ao próximo, a compaixão etc. (há também outras noções que associam evolução com formação intelectual, mas não vamos entrar nisso por ora).

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As monografias da AMORC atestam que é possível ser evoluído espiritualmente sem nunca ter tido uma experiência dos tais "poderes espirituais". Pessoalmente, acho que a ideia de evolução mais próxima da noção das virtudes da alma, uma vez que se para toda a humanidade ser evoluída, todo mundo teria que ter "poderes espirituais". Ou seja, evoluir seria viver em estado de exercícios espirituais, fazendo Sanctum. Se toda a humanidade fosse evoluída a esse ponto, quem iria trabalhar e produzir comida?

O problema de se entendermos a evolução como um conjunto de virtudes e "percepções da alma" é que não parece haver referenciais precisos para que possamos fazer o julgamento do que é uma percepção da alma adequada. A questão dos refugiados é particularmente eficaz para evidenciar o quanto esse conceito é uma potencial furada. O que é "evolução"? É aceitar todos os refugiados que querem entrar no seu país? E se esse fluxo for tão grande a ponto de disputar empregos com a população nativa e seus recursos alimentares? Além disso, quanto mais quantidade de gente num país, maior a necessidade de moradia. Se o país for pequenos, a oferta de moradias é limitada, o que certamente eleva o preço dos imóveis para a população nativa. Logo, ser "evoluído" é você ajudar o outro e prejudicar a sua vida?

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O que é ser evoluído? É você deixar os filhos fazerem tudo o que querem? Ou é aplicar-lhes disciplina, restringindo-lhes a satisfação dos desejos? Se sim, devemos restringir-lhes a satisfação dos desejos, para que eles possam ser disciplinados. No entanto, até que ponto vai isso, uma vez que isso certamente gera sofrimento? É correto gerar sofrimento nos nossos filhos? O que é evolução? É você obrigar sua filha a casar com um rapaz que VOCÊ prometeu ao pai dele? Ou é deixar sua filha casar com quem quiser, mesmo que isso prejudique as alianças que sua família construiu? Logo, sociedades liberais são mais evoluídas que sociedades tradicionais? São muitas questões cuja resposta depende muito do contexto e da situação. 

Estes são apenas um exemplo singelo de que o conceito de "evolução" dá um breque quando lidamos com o universo das ações no mundo real, o que invariavelmente traz à tona questões políticas. E a partir daí é extremamente difícil clivar o mundo entre os "evoluídos" x os "não evoluídos". Tem gente que acha que ser comunista é ser evoluído porque se "preocupa com os outros". No plano das ideias, o comunismo implica que o Estado irá distribuir adequadamente os recursos para toda a população de acordo com suas necessidades. Na prática, os seres humanos que compõem o Estado simplesmente não conseguem dar conta de processar tanta informação de cada produto que cada indivíduo precisa para suprir suas necessidades muito específicas, o que gera fome, carestia e corrupção. Já os liberais "menos evoluídos" explicam que o mercado acabará suprindo as necessidades de cada um. Na práticas, os americanos da década de 1870 e 1980 viviam muito melhor que os soviéticos (a menos, é claro, que você fosse "camarada do partido"). Ou seja, ser comunista é necessariamente ser "evoluído"?

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Poder-se-ia argumentar que evolução não tem nada a ver com política, sendo apenas uma condição espiritual. No entanto, este argumento é falho, uma vez que a ideia de evolução é uma cosmovisão que lega um horizonte a humanidade. Supondo que todas as pessoas que compõem um governo tenham a evolução como sua cosmovisão, em algum momento precisarão tomar ações políticas para alimentar a população e para fazer a máquina social girar. Logo, em algum momento as ações políticas tangenciam a ideia de evolução.

Não é possível, portanto, separar o conceito de evolução das ações cotidianas dos indivíduos e coletivos. Dessa forma, se buscamos uma "evolução", isso demanda necessariamente a tomada de determinadas ações. 

Supondo que num país negros e brancos não podem se casar porque as leis foram criadas com base na ideia racista de que a miscigenação prejudicaria a população do país. Onde está a evolução? Está no fato do negro aceitar passivamente esta situação, acreditando que as leis do país deverão sempre estar comprometidos com a orientação primordial de seus construtores, pois transcendem ao tempo e expressam as trilhas da ascese, respeitando a condição evolutiva possível a cada um dos microcosmos que empreenderam o caminho das estrelas? Ou a evolução estaria no fato de os negros lutarem para mudar essa ideia?

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Ora, se aceitarmos a ideia de que o casamento interracial é parte da "evolução" e os negros não deveriam aceitar passivamente a discriminação, por que os membros homoafetivos da AMORC devem aceitar passivamente que a discriminação deles deve sempre estar comprometidos com a orientação primordial de seus construtores, pois transcendem ao tempo e expressam as trilhas da ascese, respeitando a condição evolutiva possível a cada um dos microcosmos que empreenderam o caminho das estrelas? 

Você imagina um negro aceitando o racismo sob o argumento de que o racismo é "condição evolutiva" do microcosmos onde ele vive? Por que os homossexuais deveriam aceitar isso? 

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Esse argumento que sugere uma passividade frente à injustiça, à discriminação e à maldade pura e simples com base numa condição evolutiva local chega a me dar náuseas. É tão horrível quanto aceitar a discriminação dos negros porque "na outra encarnação eles foram escravizadores e agora têm que aceitar seu carma" ou então fazer a mulher aceitar o marido que a agride porque "Deus assim o quis e a Bíblia não permite o divórcio".

Assim, o conceito de "evolução", que era uma ideia para fazer as pessoas caminharem pra frente, é apropriado pela mentalidade dessa gente branca cis hetero de classe média para enfiar goela abaixo dos homossexuais conformismo e aceitação passiva da crueldade e da discriminação. Assim, os LGBTs não podem ter acesso ao Ritual de Matrimônio porque é uma "condição evolutiva possível do microcosmos". Os cristãos são decapitados pelo Estado islâmico porque é uma "condição evolutiva possível do microcosmos". As grandes empresas geram guerras em várias partes do mundo por causa de uma "condição evolutiva possível do microcosmos".

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Francamente, façam-me o favor. Esse argumento é CA-NA-LHA. 

A estratégia da AMORC, no entanto, é desviar o olhar sobre a questão. Algo como: "vamos nos preocupar com a humanidade e o planeta Terra e ignorar essa questão do casamento homoafetivo porque é uma questão secundária". De fato, essa me parece ser uma questão bem secundária. No entanto, se a ideia de evolução se apresenta como uma cosmovisão de mundo que se refere a toda a humanidade, em algum momento, essa questão tem que estar sobre a mesa. E se não está agora, não está por quê? Quais razões? Quais argumentos?

Muitos membros já tentaram me dar uma resposta sobre o porque da Ordem Rosacruz AMORC não dar nenhuma justificativa de não incluir casais homoafetivos no Ritual de Matrimônio. Agradeço a todos. O problema é que se eu for ouvir a opinião de TODO MUNDO, eu não terei opinião alguma. Embora as opiniões de todos sejam de grande valia, o que de fato é importante, é que os dirigentes apresentem suas justificativas. E, principalmente, expliquem se a ideia de que apenas os heterossexuais têm o direito ao Ritual de Matrimônio provém do que acreditam ser o hierofante espiritual da organização, Kut Hu Mi. Seria ele quem dirige a evolução?

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Isso traz outros desafios ao conceito de evolução. Se Kut Hu Mi inspira essa discriminação, isso implica no fato de que todo mundo que é favorável à ideia de que "casais homo e heterossexuais têm direito em pé de igualdade ao Ritual de Matrimônio" está contrária á orientação dos Mestres Cósmicos. Isso significa que países que aprovaram os direitos LGBTs estão contrários à "evolução" guiada por estes "mestres", ao passo que países como Irã, Sudão, Nigéria, Somália e outros que matam ou relegam ao ostracismo os LGBTs, estão corretos e cosmicamente inspirados. Por outro lado, se Kut Hu Mi apoia que casais homo e heterossexuais têm direito em pé de igualdade ao Ritual de Matrimônio, logo, a AMORC, ao não realizá-los, não está sob a inspiração deste "hierofante", como ela afirma. 

A partir daí, fica a última questão: Se entendermos que "casais homo e heterossexuais têm direito em pé de igualdade ao Ritual de Matrimônio" é uma ideia que se refere à "evolução", se os membros da AMORC são instados a buscar e a se esforçar pela evolução individual e do seu redor, que atitudes os membros homoafetivos deveriam ter? Deveriam eles aceitar a "condição evolutiva possível do microcosmos"? Ou deveriam se esforçar para mudar isso com os meios e recursos que têm disponíveis? Se eles devem "aceitar a condição evolutiva local", por que, então, eles deveriam visualizar a paz na Síria ou enviar pensamentos de amor para toda a "humanidade"? Não seria melhor aceitar a condição evolutiva possível do microcosmos e deixar pra lá?

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Isso é basicamente utilizar um conceito metafísico para estimular estados mentais de aceitação passiva e ignóbil de uma injustiça injustificada. Na minha humilde perspectiva, a AMORC, se ela pretende ser uma cosmovisão, uma resposta de mundo ou uma alternativa metafísica nesse mundo globalizado e carente de espiritualidade,  ainda precisa dar mais explicações sobre o assunto. 

Quando a Grande Loja de Língua Portuguesa afirma que "o rito foi feito para heterossexuais e, se algum dia mudar, cabe ao Imperator", o que ela está fazendo é simplesmente desviando o assunto, pois o que está em jogo é: Se mudar, vai mudar quando?   Se não mudar, por quais razões não vai mudar? Os membros não merecem saber? Será que isso é uma pergunta tão difícil assim? Se for, de fato, por "razões evolutivas do microcosmo", que assim seja, mas estes argumentos têm que vir deles, pois como eu demonstrei, isso tem inúmeras implicações de ordem prática. 

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Assim, João Henrique R. dos Santos, nós agradecemos a sua disposição em comentar no blog. Mas afirmar que "a estrutura e os ritos da AMORC deverão sempre estar comprometidos com a orientação primordial de seus construtores. Transcendem ao tempo e expressam as trilhas da ascese, respeitando a condição evolutiva possível a cada um dos microcosmos que empreenderam o caminho das estrelas" NÃO É UM ARGUMENTO. 

Sorry.

Amor e Paz