Uma das coisas que sempre achei mais odiosa nas religiões foi o proselitismo religioso. Isso se dá não só pelo caráter agressivo de muitas dessas práticas como também pela petulância de querer mudar as concepções interiores do outro. E pior: geralmente os “evangelizadores” estão fortemente imbuídos da certeza de possuírem a verdade e que portanto devem apresenta-la a outros povos. Já diz a citação bíblica: Ide e anunciai a boa nova a todos os povos.
Tal sentimento é de uma arrogância ímpar. Mas infelizmente, tenho que concordar que o proselitismo gera frutos – seja na forma de fiéis ou seja na forma de milhões em arrecadação.
Dizem que o Cristianismo e o Islamismo são as duas maiores religiões do planeta. Não é de surpreender isso. Também são as duas que mais investem num proselitismo agressivo.
O islamismo espalhou-se pelo planeta sob a força da espada. Além da imposição por meio da violência, os povos da Arábia pré-islâmica que não eram muçulmanos pagavam mais impostos que os muçulmanos. Obviamente que aquelas pessoas tiveram que optar entre manter sua fé e levar uma vida financeira mais tranquila. Não é de se admirar que o islamismo tenha conquistado diversas regiões. Na Indonésia os muçulmanos mataram milhares de travestis na ilha de Sulawesi pois estas representavam crenças pagãs.
Por parte do Cristianismo – este então nem se fala. Na Europa pré-cristã, a evangelização dos povos muitas vezes foi à força. A Igreja convertia reis e estes por sua vez forçava a conversão dos povos sob seu domínio.
No Neocolonialismo do XIX, os europeus destruíam templos tribais na África, impediam pais de registrarem filhos com nomes nativos, forçando-os a adotarem nomes cristãos. Ainda hoje evangélicos queimam templos indígenas na Amazônia.
A escalada evangelizadora corre solta na India. Eles se aproveitam dos dalits – excluídos – para converterem-nos usando de retóricas como “os brahmanes não te amam, mas Jesus te ama!”. O neocolonislismo varreu do mapa culturas milenares, substituindo-se pela histeria da evangelização cristã. Caso bem significativo é a belíssima cultura dos yorubás da Nigéria – hoje substituída pelo radicalismo islâmico e neopentecostal.
É desnecessário dizer que boa parte desse proselitismo é feita com base na retórica, aproveitando-se da ignorância das pessoas. Lembro-me da primeira vez que perguntei a um evangélico: “Se Deus pode tudo, por que ele não mata o Demônio ao invés de deixar os humanos lutando eternamente com criatura tão vil?” – ele parou, pensou e se fez uma série de perguntas.
Este tipo de questionamento é básico para toda pessoa pensante. Mas parece que muitos religiosos não conseguem fazê-lo – ou por medo de questionarem as estruturas do prédio onde moram ou por preguiça mental ou por pura incapacidade mesmo.
Frequentemente é dito que religiões antigas como a grega, a egípcia, a suméria etc eram erradas pois acabaram e ninguém mais acredita nelas... E se hoje o islamismo e o cristianismo são mais seguidos do que essas religiões antigas, é porque as duas religiões monoteístas estão mais próximas da Verdade...
É MUITO difícil escapar desse raciocínio retórico. Não obstante, não podemos afirmar com certeza que o Cristianismo e o islamismo substituíram religiões antigas porque são melhores. Se assim o fosse, não haveria tanta gente buscando resgatar antigas religiões.
O que aconteceu de fato é que o proselitismo é responsável pela destruição de toda uma cultura – de seus sacerdotes, de sua credibilidade perante um povo etc. Isto posto, no espaço de uma geração, os descedentes já não encontram rituais e locais para reproduzirem suas antigas crenças. Associa-se isso a uma crise econômica dos povos dominados e um dominador que, além de deter os meios de produção, ainda traz a crença num Deus que te ama, que vai te arranjar emprego, há uma situação social de forte sensibilidade a esse discurso salvacionista oferecido pelos povos sofridos.
Assim está sendo a evangelização da África, onde muitos negros abandonam suas religiões nativas e vão para Igrejas evangélicas, pois é lá que estão empresários e os americanos e, portanto, o dinheiro.. Aliás, este processo é, inclusive, encontrado no Brasil, onde as igrejas dinamizam as micro-economias. O curso de formação de pastores é uma ótima solução para jovens que por pusilanimidade abandonaram as escolas e agora estão desempregados.
Assim foi a evangelização dos índios norte-americanos, onde suas crenças chegaram a serem proibidas por lei. Sob essas duras condições é muito fácil uma cultura se perder. Assim, não podemos afirmar que a substituição de uma religião pela outra é um simples movimento em direção a algo melhor. A conversão está ligada a processos históricos e sociais bastante complexos.
Foi o proselitismo religioso que levou a homofobia para lugares onde isso sequer era uma questão. Dos países que criminalizam a homossexualidade atualmente, a maior parte é resultado da influência britânica.
Cabe ressaltar que religiões como a Wicca, Budismo, Judaísmo, Xamanismo e até mesmo o rosacrucianismo não são proselitistas. Eles podem até fazer a apresentação de sua filosofia para o público para ter mais membros, mas isso não significa que se esforçam para convencer as pessoas de que elas estão erradas e devem adotar a VERDADE.
Converter o outro é egoico. O pastor-safado que arrebata fiéis é energizado com o indisfarçável sentimento da vaidade de conseguir convencer os outros de que ele próprio está certo. O proselitismo é egocêntrico, vaidoso, arrogante, prepotente e petulante.
Por mais que ele se disfarce de boas intenções para “fazer o bem”, sabemos que de boas intenções o inferno está cheio. Uma igreja ou mesquita cheias são sempre motivo de vaidade para um pastor ou imã islâmico. Converter os outros é uma fonte infinita de recursos.
Considero o proselitismo religioso uma forma de abuso, além de contribuir para a destruição de culturas inteiras em nome de uma verdade e de um Deus únicos, onde os evangelizadores acreditam serem os legítimos portadores.
Após conseguir arrebanhar fiéis, as religiões criam instrumentos sofisticados para não perdê-los. No Cristianismo queimou-se pessoas. Nas igrejas evangélicas, quando uma pessoa deixa a igreja, ela passa a ser malvista. O islamismo tem o crime de apostasia (renúncia da fé) punido com morte. Sob essas condições, é fácil manter os fiéis. Ousar pode ser um crime caro demais a se pagar.
Uma verdadeira religião deixa que os fiéis venham até ela. É um movimento de dentro para fora (Proselitismo é diferente da propaganda de uma instituição). Os rosacruzes, por exemplo, sugerem que os membros arrebanhem novos membros pelo exemplo cotidiano de comportamento espiritualista – uma forma de propaganda pessoal.
A Igreja Universal em minha rua põe um carro aos berros mostrando os “milagres” da Universal, forçando a rua inteira a escutar. Isso é mais que desrespeito. Isso é a necessidade de abafar todo e qualquer tipo de vozes contrárias. Talvez seja por isso que os pastores evangélicos berrem tanto.
A retórica usada para converter os outros é uma verdadeira ciência aprendida no curso de pastores da Igreja Universal. Para este tema seria necessário um outro texto. Não obstante, é possível dizer que a necessidade de converter os outros dá aos evangelizadores uma sensação de pertencimento e um objetivo de vida. A ideia de pertencer a uma coletividade que é proprietária de uma verdade que os outros não têm e que é preciso apresentar essa Verdade aos outros “povos”, é um dos primeiros passos para a lavagem cerebral.
Na África, igrejas evangélicas distribuem panfletos com os seguintes dizeres: “Se seus pais forem pagãos, você deve romper a relação com eles”. (Informação tirada da revista Nossa História). Assim é muito fácil acabar com uma cultura.
Seja como for, é importante resistir a este processo. Mas COMO? Utilizando-se de outros conceitos, outros paradigmas que não os judaico-cristãos. As categorias conceituais que trabalhamos não são naturais.
Quando digo que sou um ser dual, ao invés de LGBT, estou oferecendo minha resistência a um processo que começou há 500 anos com a chegada dos europeus na América. Estou usando categorias das tribos indígenas dos EUA. Por que eu tenho que usar as categorias dualistas da cultura judaico-cristã? NÃO VOU ABAIXAR A CABEÇA PARA AQUELES QUE QUEREM DOMINAR A MINHA ALMA. Resistência cultural também é uma forma de militância!
Cada um deverá arranjar seu próprio jeito.
Amor e Paz.
OBS: Não nego a possibilidade de que em alguns casos a conversão pode sim representar a substituição de uma crença ruim por uma crença superior. A crença asteca, por exemplo, implicava no sacrifício de muitas vidas para aplacar os deuses iracundos. É inegável que a figura católica de Maria com seu amor infinito talvez tenha tido um apelo religioso muito mais profundo do que deuses sedentos por sangue. Nesse sentido, me dou o benefício da dúvida.