Objetivos do "Evolução LGBT"

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Embora o foco do blog seja o universo LGBT e o rosacrucianismo e a espiritualidade, todos são bem vindos a ele, mesmo aqueles que não possuem ligação com estes temas, pois as reflexões aqui expostas apresentam um caráter universal.

Seu objetivo é apenas divulgar idéias e sugerir mudanças nas mentalidades. O blog não tem como meta impor verdades ou interpretações supostamente mais válidas a quem quer que seja. Todas as críticas construtivas e imbuidas de boa vontade de construirmos juntos um pensamento são bem vindas.

Seu autor tem formação superior em humanas e se dedica ao estudo do misticismo e da espiritualidade de maneira geral. Os conteúdos do blog podem ser divulgados. Peço apenas que dêem os devidos créditos ao site.
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by Revolucionário



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O sentimento de não-pertencimento dos LGBTs



Certa vez vi um filme chamado “The Gift”, que falava das pessoas que voluntariamente se contaminavam  com  o vírus HIV. Numa certa hora do documentário, perguntaram ao rapaz por que ele tinha feito aquilo e ele, num olhar distante e melancólico, disse que não sabia muito bem, mas que pelo menos agora ele era parte de um grupo – o dos homens que podiam transar livremente entre si .



            Essa questão de ser parte de um grupo é muito pertinente ao universo LGBT. Embora haja inúmeras exceções, na maioria dos casos, LGBTs são excluídos de diversos espaços de sociabilidade e por conseguinte do sentimento de pertença a qualquer coisa.


            Nos primeiros anos da infância, a diferenciação imposta de brincadeiras de meninos e meninas cria, ao longo dos anos, sentimentos de ambigüidade. Muitos LGBTs não sabem direito para que grupo vão. Ainda que pertençam aos dois universos – futebol com os meninos ou brincadeiras de meninas – o preço desse trânsito muitas vezes é o escárnio que cedo ou tarde vêm à tona. O resultado pode ser uma infância isolada e sem amigos.



            Na adolescência, os grupinhos heteronormativos e heterocentrados de meninos e meninas que flertam entre si geralmente não deixam espaço para que LGBTs possam se encaixar plenamente. O encaixe se dá na base da mentira e do disfarce. Os amigos muitas vezes são superficiais e qualquer tipo de papo sobre as típicas sacanagens de adolescentes, logo levam LGBT a tergiversar ou a mudar de assunto quando o papo é a vida pessoal.

            A adolescência, uma idade típica para se andar em grupo e para se fazer grandes amizades, é bastante tensa para muitos LGBTs. Claro que há louváveis exceções, mas isso é atinente aos tempos modernos e à facilidade que a internet dá aos jovens de hoje. Há bem pouco tempo atrás a coisa era BEM diferente.



            Os anos se passam e o final da adolescência, já com a mente mais ou menos estruturada com relação a quem se é e o que se gosta, os egressos da puberdade entram na juventude, na faculdade e adquirem estabilidade financeira. Este é um momento de respirar para uma vida até então angustiante.



            Não obstante, apesar das felicidades que a vivência da homossexualidade e do mundo gay proporcionam, também trazem consigo sentimentos que não vão passar. E cedo descobrimos isso.



            As festas de família por vezes se tornam intragáveis. Por mais que sejamos assumidos, a maioria das famílias parece não tocar no assunto. Enquanto todos os parentes estão com suas famílias celebrando, o LGBT frequentemente aparecerá nestes eventos solteiro, solitário, esquivo, sem uma “vida íntima” para partilhar a alegria. O sentimento de não pertencimento à família é flagrante – ou ainda o sentimento de pertencer pela metade.



            No trabalho o sistema mais ou menos se reproduz. Além disso, na vida profissional, por mais que sejamos bem sucedidos, é muito difícil se reproduzir os laços de solidariedade e familiaridade. Para não sermos demitidos, montamos diversas fachadas e passamos discretos sob nossa vida pessoal.


            Um outro importante aspecto de sociabilidade, a religião, é igualmente excludente. Ainda que os LGBTs sejam muito queridos na igreja que freqüentem,  comumente esse pertencimento é igualmente pela metade. Impedidos de ir com um companheiro, impedidos de participar dos mesmos rituais que seus “irmãos”  heterossexuais, bombardeados diuturnamente com a ideia de que a essência de seu ser é um pecado, muitos abandonam a religião.



            Por um lado isso é positivo, pois isso torna muitos LGBTs mais críticos e não-influenciáveis por manipulações escroques de pastores e padres inescrupulosos. Não obstante, por outro lado, nos momentos de necessidade, quando a pessoa precisa ouvir um amparo ou uma palavra amiga - por morte, doença ou sofrimento físico e moral - a inexistência de um discurso que faça com que LGBTs se sintam o Sagrado, sintam consolo e a proteção divina, pode ser aterradora. Já ouvi gays dizerem que não fazem preces a Deus porque não se sentem merecedores do amor divino.

          

  Mesmo em religiões e filosofias que supostamente aceitam toda a humanidade e “amam” a todos, cedo se descobre os limites desse amor. Na Ordem Rosacruz AMORC, por exemplo, que aceita qualquer um que peça afiliação, casais de sexos semelhantes são excluídos da possibilidade do ritual de casamento. Isso deixa as pessoas sem chão, sem ter aonde recorrer e pode ser angustiante.



            É lamentável ver as religiões tirarem das pessoas o sentimento de pertença ao Sagrado, ao Universo. Isso faz com que - em termos de subjetividades - LGBTs vejam a si próprios como um câncer. Não nego que as pessoas também têm responsabilidade sobre a visão de Deus que reproduzem e acreditam porque querem, não obstante ser forçado da noite pro dia a rever valores nos quais se foi criado e nos quais toda sua família partilha, é bastante doloroso.



Esse sentimento de câncer, de ser uma célula anômala que não pertence àquele órgão, é vivenciado com plenitude em festas de família.

            Na ânsia de encontrar um grupo que lhes dê suporte, auxílio e um sentimento de pertença, os LGBTs vão ao meio gay buscar preencher este vazio. A decepção é rápida no gatilho. Pessoas muito sebosas e cheias de “carão”, a cultura do corpo e da juventude, uma indefensável exclusão por classe social caracterizam os espaços gays no Brasil. Nos EUA, ao que me consta ainda há organizações que tratam LGBTs como verdadeiros irmãos entre si.



            Boates frequentemente são locais onde prepondera o vício, a falta de diálogo e toda sorte de futilidades. Num ambiente desse é difícil criar qualquer sentimento de grupo, de pertença e tampouco de significados espirituosos de si mesmo.



           Nem dentro de locais direcionados para si, eles encontram um lugar "para si".Nem as ideologias de lutas sociais parecem abarcar LGBTs e dá-lhes um sentimento de pertencimento à humanidade.


            Alijados da família, da religião, do trabalho e sendo obrigados a viver num meio gay hostil – associe-se isso à idiossincrasias da personalidade de cada um, tem-se uma vida completamente apartada de muitas coisas, vivendo um individualismo exacerbado.



            Não é à toa que muitos LGBTs privilegiam os amigos em detrimento dos namorados. Os amigos na vida de um gay ou uma lésbica pode ser uma das poucas coisas que lhes resta para fazer-lhes sentir que pertencem a algo. A ideia é que os namorados vêm e vão, mas que os amigos ficam. É bastante desagradável a descoberta de que até mesmo os amigos podem se ir. Principalmente se não temos algo que eles tenham interesse, como um carro.


Não é à toa que existem gays tão nem aí e tão agressivos. A vontade de ligar o FODA-SE para a humanidade e para o sofrimento dos outros é ENORME. A vontade de se alienar de tudo e de todos é enorme. Hoje eu entendo porque muitos gays, mesmo tendo tudo de material, se afogam em drogas e orgias desprotegidas.



Talvez muitos deles não tenham de forma consciente e racionalizada este sentimento de não-pertencer a nada,a nenhum grupo que lhes dê um caminho de vida, um significado especial para sua existência e para seus relacionamentos. Todos os meios sociais parecem integrar LGBTs à noção de humanidade apenas pela metade ou de forma a não respeitar e integrar plenamente suas identidades e sua alteridade.


Nos Estados Unidos surgiu um grupo semirreligioso com inspiração neopagã chamado “Radical Faries”. Esse grupo une homens gays para que possam compartilhar de um espírito agregador e de uma espiritualidade em comum.



Muitos vão dizer que eles se destacaram do “resto”. Na verdade foi esse resto que destacou os LGBTs. Estes apenas deram suas respostas. Resta saber se vamos criar nosso próprio sentimento de pertença a alguma coisa que inclua apenas LGBTs ou se vamos tentar dialogar com esse grupos sociais. Qualquer que seja a resposta, teremos vantagens e desvantagens.




Independentemente de nossas respostas, o sentimento de não pertencer a nada é bastante angustiante. Talvez não seja para os jovens que ainda têm suas famílias por perto e com a esperança de arranjar um companheiro. Mas para muitos LGBTs que estão na meia idade, que já perderam os pais, que já não têm capital físico para disputar homens na boate, a situação talvez seja melancólica - sem família, sem religião, vivendo a vidinha discreta no trabalho. Solidão e vivência de uma individualidade absoluta - sem nada que desperte um sentimento de "macro". Apenas reuniãozinha com os amigos.



Uma das poucas exceções a isso parece ser a possibilidade de luta contra a homofobia e a conquista ds direitos civis, que parecem dar aos LGBTs um sentimento de pertencimento e envolvimento em torno de uma luta comum.



LGBTs parecem ser forasteiros dentro de seu próprio país. O jeito é achar espaços de Vida dentro desse imeso muro de concreto.





2 comentários:

  1. Ótimo texto. Parabéns! Nós, do Movimento (e blogue) Espiritualidade Inclusiva assinamos embaixo tudo o que foi escrito. Tanto que o blogue de vocês está entre os que recomendamos no nosso. Abraços!

    Paulo Stekel
    (Movimento Espiritualidade Inclusiva - http://espiritualidadeinclusiva.blogspot.com)

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