segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Deus nos criou homem e mulher? - Reflexões teológicas sobre os corpos

Deus nos criou homem e mulher.

Embora essa frase tenha muitas formas de se interpretar, quero sair um pouco do aspecto da literalidade bíblica e entrar em questões mais práticas.

Muitos conservadores usam essa frase para tentar atingir LGBTs, principamente travestis. Os conservadores um tantinho mais inteligentes ainda usam o argumento biologicista da genitália (ou masculina ou feminina) e juntam isso com a ideia de um Deus que proporciona a biologia e assim surge um "samba do afrodescendente com problemas mentais".



Os intelectuais de esquerda, mormente os próximos da teoria de gêneros, apelam para as diferenças culturais para dizer que homem e mulher são categorias puramente culturais e não são, portanto, criadas por "Deus",

Mas esse argumento da teoria dos gêneros apela para questões acadêmicas muito herméticas para quem está de fora. Sinto que para rebater esse argumento é preciso destrinchá-lo passo a passo e que ele tangencia questões teológicas profundas. Além disso, sinto que é preciso também dialogar com questões de pensamento mais pragmáticas.

Em primeiro lugar, a ideia de que Deus nos criou homem ou mulher tem base num pensamento de que Deus está na origem de toda a vida e, portanto, no modo como todos os seres nascem. Há três questões aí:

1- Se isso fosse verdade (que Deus nos criou homem e mulher), como explicar o hermafroditismo? Como vemos, a frase bíblica não dá conta de toda a diversidade de possibilidade na natureza. 



2- Por outro lado, se Deus nos criou de uma forma e devemos obedecer essa forma, como explicar que algumas pessoas já nasçam com doenças genéticas, problemas de audição, de visão e uma cacetada de outras coisas? Como um Deus tão "bom" pode ter criado pessoas que já nasçam de uma forma tão "infeliz"? 



Ora, se somos criados como homem e mulher e por isso não podemos mudar nada nessa condição, então, uma pessoa que tenha nascido com problema de audição, também não pode fazer cirurgia para melhorar sua condição, afinal, caberia a ela obedecer o modo como ela foi criada por Deus, não?

3- Por fim, se não podemos mudar nada no modo como nascemos, então pintar o cabelo, usar desodorante, depilar o corpo, cortar o cabelo, usar roupa, usar maquiagem, fazer tatuagem etc - nada disso também seria teologicamente válido, né?



Parece que o foco dessas pessoas, como sempre, é a sexualidade dos outros, apenas.

Assim, tenho uma outra sugestão de visão sobre essa problemática teológica.

Embora eu acredite que "Deus fez os seres humanos macho e fêmea" (tendo as duas potencialidades dentro de si) e não ou homem ou mulher, sei que essa visão pode parecer avançada demais para alguns.

Mas mesmo para aqueles que acrzeditam que Deus nos criou ou homem ou mulher, isso muda de envergadura se admitirmos que somos uma personalidade-alma. Ao admitirmos essa possibilidade, somos levados a pensar que essa alma que habita em nosso corpo tem memória, consciência, gostos e personalidade. Assim, o corpo deve estar submetido à alma e NÃO O CONTRÁRIO.



Um corpo deve e pode estar submetido aos impulsos e necessidades interiores de uma personalidade-alma. Dessa forma, trocar de sexo é tão lícito e saudável para alguns quanto pintar o cabelo, usar desodorante, fazer tatuagem, depilar o corpo, fazer modificações corporais, usar aparelho nos dentes ou usar óculos. Nosso corpo é sempre submetido aos ditames de nossa alma.

Alguns desses impulsos estão ligados a uma cultura. Por exemplo, usamos aparelhos nos dentes porque em nossa cultura, ter um sorriso bonito e alinhado é legal. Já outros desses impulsos estariam ligados a determinadas personalidades-alma, com determinadas necessidades de experiências para adquirir a evolução. Este é o caso de travestis, transsexuais e também pessoas que trabalham com modificação corporal. 



Como podemos ver, dizer que Deus nos criou homem ou mulher para deslegitimar LGBTs, é um argumento simples e estúpido. Se quem estiver dizendo isso usar óculos, é estúpido ao quadrado.

OBS: Com relação à questão: "Por que Deus "faz" algumas pessoas com corpo perfeito e outras com o corpo tão cheio de doenças?" Sendo esse Deus perfeito, como pode Ele ser tão injusto para com alguns? A ideia de "carma" explicaria isso.

No entanto, prefiro pensar que nossa carga genética obedece a uma certa aleatoriedade e não está sujeita necessariamente a uma "ordem" de um Deus que está na origem tanto de nosso corpo saradinho, quanto de nosso corpo cheio de problemas genéticos. Aquilo que chamamos de criação, que é o fenômeno ligado ao nascimento e à morte, pode ter algo de Deus, mas é essencialmente um processo natural, com todo o caos do mundo material.



Isso não significa que uma inteligência divina não esteja tangenciando esse processo. Ela surgiria como uma força que dinamiza o processo da Vida. Mas esse processo tem uma parte material que é basicamente aleatória. 

Assim, dentro das coisas que simplesmente acontecem em nossa vida por conta da materialidade à qual estamos submetidos (como um câncer genético), é preciso que a personalidade-alma passe por esse processo e consiga extrair algo de útil para si própria. 



OBS2: Disse acima que o nosso corpo deve estar submetido à nossa alma. Essa, no entanto, não é uma questão simples. Isso porque já se sabe que já psicopatas de nascença, por causa do modo como seu cérebro é constituído. Em outras palavras, é um típico caso de que a alma fica submetida ao corpo.

Será que a "alma" ali encarnada é pouco evoluída? Ou será que é uma alma sofrendo inocente as consequencias do seu cérebro? Se admitirmos essa segunda hipótese, será que uma pessoa com câncer genético, tem essa doença por causa do carma? Da sua necessidade de evolução interior? Ou por causa de nada, simplesmente de um acaso biológico?



Como podemos ver, é um debate filosófico profundo!

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