segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Deus te aceita do jeito que você é?

Há um grande debate na teologia inclusiva sobre se Deus aceita os homossexuais do jeito que eles são. As igrejas tradicionais vão dizer que não, pois o plano de Deus é que todas as 7 bilhões de pessoas que existem no planeta sejam homens e mulheres heterossexuais apenas. 

As igrejas inclusivas dizem que Deus aceita os homossexuais do jeito que eles são. Afinal, quem tem razão?

A meu ver, esse debate envolve questões muito mais complexas que estão mais fundo, longe da superfície. Trata-se da  antropomorfização da ideia de Deus, ou seja, de ver em Deus características próprias dos seres humanos como amor, ódio, vingança, perdão, misericórdia, compaixão, aceitação etc. 



Essa ideia de Deus como um ser humano me parece absolutamente questionável. Se um cachorro pudesse ter uma ideia de Divindade, será que ele veria essa Divindade com as características de um cachorro ou de um ser-humano? Se levarmos em consideração que um cachorro não tem consciência de muitas coisas que são atinentes aos seres humanos, seria difícil conceber como um cão pode visualizar numa força maior além da existência dele características das quais ele não tem consciência.

Assim, os seres humanos tendem a atribuir a Deus características dos seres-humanos porque são essas características que eles próprios têm. Assim, é difícil visualizarmos algo fora daquilo que trazemos conosco porque isso demanda um forte grau de abstração de consciência e até de imaginação.

Além do que, a ideia de que existe uma divindade com características humanas, faz o magnum misterium da Vida algo mais próximo, menos misterioso, mais "transitável". O raciocínio é o seguinte: "Se Deus é uma pessoa igual a mim, e pessoas dialogam, ouvem e apoiam umas às outras, então eu posso dialogar com Deus que consequentemente ele irá me ouvir e me apoiar".



Baseado nessa premissa, surge ideias de que Deus pode aceitar ou não alguém baseado na sua orientação sexual.

O rosacrucianismo tem uma outra resposta a essa problemática. 

Essa linha de pensamento não chega a definir o que é Deus. Tanto é que, para invocá-lo, os rosacruzes geralmente falam a frase: "Deus do meu coração, Deus da minha compreensão". Isso porque reconhecemos que a ideia de Deus é algo que tem que surgir do coração e da compreensão de cada um e não ser a imposição de uma instituição, cultura ou tradição particular.

No entanto, apesar de os rosacruzes não definirem com precisão o que é Deus, eles definem o que ele NÃO É. E certamente ele não é uma Entidade Espiritual antropomórfica. 



A visão que os rosacruzes têm para definir Deus é que ele (ou ela!) seja uma espécie de Inteligência Universal que organiza o cosmos com base em leis pré-definidas. Um dos objetivos da vida do homem seria fazê-lo tomar consciência dessas leis e assim dominá-las e aplicá-las para o Bem Universal, de modo que o homem, ao estar consciente dessas leis e da sua natureza Divina, possa ser um agente da Divindade.

Ainda sob essa ótima, conforme o indivíduo vai se harmonizando mentalmente com essa Inteligência Universal, essa "Força Maior", ele vai desenvolvendo certos sentimentos próprios de pessoas que vibram em ressonância com esse "plano". É por isso que dizem que o Amor, a Misericórdia, o Perdão, a Caridade, Compaixão etc são sentimentos divinos. Não significa dizer que há uma entidade espiritual com esses sentimentos, mas sim que a harmonia com determinados "planos de consciência" nos infunde nesses sentimentos próprios desses estados mentais.

A visão rosacruz de Inteligência Divina, aproxima-se da ideia grega de que Deus é um grande Geômetra, um grande Arquiteto do Universo.



Sob o entendimento de Deus é uma força transcendente, uma inteligência que ordena os fenômenos da natureza e do universo, fica difícil atribuir características humanas a "isso". Aliás, fica mais difícil ainda dizer se Deus "aceita ou não" algo. 

Na verdade, sob essa ótica de Deus como força ordenadora do universo a partir de leis e fenômenos da natureza, a existência de mulheres com características masculinas, homens com características femininas, transgêneros e de toda a diversidade sexual e de gênero, seria parte de uma Lei cósmica, um produto direto da atuação das leis divinas. E que lei seria essa? A lei da gradação.

Assim, a população LGBT estaria imersa na Inteligência Divina. 



Percebam que o debate que se desenrola sob essa concepção de Deus, é TOTALMENTE diferente do estéril debate sobre se Deus aceita ou não a existência dos homossexuais.

Percebam que esse debate é totalmente impossível em outras matrizes religiosas.

No taoísmo, por exemplo, não existe a ideia de Deus. Eles trabalham que o que está além da Vida não é uma Entidade Espiritual com superpoderes, tal como se pensa no Cristianismo. Para eles, o termo "tao" (ou "dao") é uma fonte, a dinâmica e a força motriz por trás de tudo o que existe. E essa força é basicamente indefinível.

Assim, se se entende Deus como uma Energia Cósmica transcendente, também vemos que é inútil esse debate sobre se Deus aceita os LGBTs ou não. Antes, o debate seria outro. Seria algo como: "Qual o papel da diversidade sexual e de gênero na natureza", ou ainda "sob quais leis da natureza a população LGBT está integrada?"



Por fim, se você é LGBT cristão e gosta de ouvir que Deus te aceita do jeito que você é, se isso te conforta, tudo bem. Mas acho que há definições sobre o conceito de Deus absolutamente diferentes. Vale a pena dialogar com elas. No final, talvez vejamos como essa coisa de "Deus te ama do jeito que você é" é estéril.

O que vocês pensam sobre isso?

Amor e Paz

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