quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O conceito de beleza - Há uma ideia universal de beleza?

Certa vez eu viajava com um amigo para Parati e íamos no carro dele falando sobre como a natureza é bela. No entanto, eu o redargui, dizendo que nem todos acham a natureza bela. Disse a ele que durante muito tempo a natureza foi vista pelos povos europeus como algo selvagem, algo primitivo e que o bonito era a cidade, as construções, o carro, enfim, a civilização.

Reforcei ainda que a visão de que a natureza era bela e graciosa, é uma construção contemporânea, pois durante milênios, a natureza representou perigos com doenças, cobras venenosas, animais ferozes etc. a ideia era suplantar a natureza.

Eu e meu amigo caímos então num outro debate: Existe um conceito universal de beleza?



Certamente que não. Há tribos indígenas com certos adereços no corpo que achamos feio, mas que para eles é bonito. Aliás, nem na nossa civilização ocidental a ideia de beleza pode ser uniforme. O que era moda na década de 80, hoje em dia nos parece horrendo. Exemplo disso são as ombreiras nas camisas e cabelos mullet.



E o que o misticismo tem a ver com isso?

Apesar de o que definimos como belo mudar de década para década, de cultura para cultura, essas mudanças são apenas na superfície. Nos níveis mais profundos de nossa consciência, nossa cultura ocidental é fortemente influenciada pelo conceito grego de beleza.

A noção grega de beleza envolve a ideia de simetria - a beleza está na simetria das formas. Em outras palavras, a imperfeição tira a beleza das coisas. As esculturas gregas estão baseadas no estudo da forma, da beleza.

No âmbito dos gêneros, também somos influenciados, mas dessa vez pelo ideal romano de masculinidade. O masculino e o feminino são idealizadas quase que de maneira arquetípica.



Na prática isso se verifica quando as pessoas se relacionam. Há muitas mulheres que perdem o tesão se o homem não for valentão ou corajoso. Há homens que acham que suas mulheres têm que se comportar de determinado jeito para ser mulheres de verdade. Já ouvi mulheres dizendo que homem para elas tinha que coçar o saco e cuspir no chão.

De fato, vemos que as individualidades são suplantadas por papéis de gênero que devem ser cumpridos. Ainda que hoje isso esteja muito flexível, ainda assim exerce um peso considerável sobre homens e mulheres heterossexuais.

Para a população LGBT, o ideal grego de beleza é assustador.É só chegar no point gay da praia de Ipanema, para vermos aquelas criaturas produzidas em série, ao estilo do fordismo. Todos muito fortes, muito bonitos, sempre querendo alcançar a simetria das formas e os ideais do masculino.



Também há gays que dizem não gostar que o namorado "dê pinta" (aja de uma forma feminina) e lésbicas masculinizadas dizendo que têm dificuldade em arranjar namorado porque as lésbicas preferem as mais femininas (mais próximas do padrão).

Seja como for, o ideal grego de beleza aproxima-se da ideia de padrão, conforme um suposto modelo arquetípico. ainda que cada tempo e cada país dê toques culturais e de modismos de época a essa ideia, sempre giramos em torno do padrão.

A questão é que esse conceito de beleza não é único. Há outros e quero não só apresentá-los aos leitores, como também mostrar como eles podem ser belos.

O físico brasileiro Marcelo Gleiser ressaltou que em inglês, aqueles sinais que temos na pele são chamados de "beauty marks", ou marcas da beleza. A cultura anglossaxã, conservou algo de inestimável valor na sua psiqué - a de que o que faz a beleza de alguém é justamente os "defeitos" desse alguém.O sinal, a pinta, a mancha, rompe com a ideia grega de simetria. E é na ASSIMETRIA que consiste a BELEZA.



Sugiro que o leitor pare um tempo refletindo sobre a última frase.


Na prática, esse raciocínio anglossaxão pode ser aplicado tanto para as personalidades das pessoas, quanto para o corpo.

Sabe aquela pessoa que tem uma característica chata, que você não aguenta? e que você acaba dispensando ela por causa dessa característica??? Pois é. Você muitas vezes a dispensa porque trabalha com a noção grega de beleza associada à perfeição.

Será que se tivéssemos em nossa mente que algumas características das pessoas são justamente o que as torna especiais, singulares e um desafio para a nossa evolução, dispensaríamos tão fácil os outros???

Talvez toda a riqueza de alguém esteja justamente naquela característica mais peculiar de sua personalidade que, embora te incomode, te força a se melhorar como pessoa e a tolerar o outro. Certamente é mais fácil dispensar, do que tolerar.

Claro que a ideia de "beauty marks" não pode ser usada para nos submetermos a qualquer um e nem a aguentarmos qualquer característica de personalidade, principalmente aquelas mais destrutivas. Mas por outro lado, me pergunto até que ponto não somos infelizes, buscando nos outros uma perfeição grega que não existe em ninguém?



Trabalhando com a noção grega, ficamos sempre naquele sentimento de incompletude, de "tem alguém melhor do que a pessoa que estou". Claro! Sempre haverá alguém melhor do que os outros e do que nós mesmos em muitos aspectos, mas pior em outros.

Com a noção anglossaxã, uma vez casados, aprendemos a ver a beleza no outro e a ir nos esquivando com sabedoria e paciência dos conflitos que surgem, sem necessariamente deixar de reconhecer a beleza do outro.

No aspecto físico, acredito que os gays e as mulheres heterossexuais são os mais atingidos pelos ideias gregos de beleza.

A ideia de beauty mark traz uma nova perspectiva para o modo como encaramos a beleza corporal. Se o pequeno "defeito" é que faz a beleza, então viva a barriguinha, viva as estrias, viva os diferentes tipos de pênis, viva a pinta do seu namorado, viva os gostos musicais esquisitos dele (quem sabe não é a hora de você escutar uma música nova?), viva os hábitos estranhos, viva o cego, viva o surdo, viva o mudo, viva o coxo, viva a celulite, viva os cheiros ruins, viva o diabético (quem sabe não seja lindo cuidar de alguém?)



Acho super excitante ficar com pessoas comuns, com pelos e corpo de gente e não de boneca de porcelana.

Lembro-me de ver dois programas no Discovery Channel - um sobre uma mulher gigante e outro sobre a mulher mais feia do mundo. Elas duas aparentemente tinham uma alegria infinita de viver. E ambos diziam: eu não quero mudar, eu nasci exatamente para ser do jeito que eu sou, pois acredito que Deus tenha um propósito para mim.

Sim, meus anjos, Deus os colocou aqui para ver quão somos idiotas. Enquanto isso aquelas bichas ridículas se matando na academia para ter um corpo que, embora lindo, é efêmero e vazio. Realmente elas têm o mérito do esforço, mas a vida não é só isso.



Eu sou um ardoroso defensor da noção "beauty mark" de beleza. Antes de conhecer meu atual companheiro, que é pintosa e gordinho, conheci um menino forte, loiro, olhos verdes. LINDO. Eu bati, e era oco por dentro. Prefiro meu companheiro que, mesmos com sua não adequação ao ideal grego de beleza e masculinidade, preenche a minha alma.

Claro que temos gostos, preferências e instinto. Muitas vezes o que gostamos nos foge ao controle. Mas isso é relativo, pois nossa sexualidade é também permeada por valores culturais. A noção de beauty mark não significa aguentar qualquer jaburu e pessoas difíceis, mas sim, de valorizar certos detalhes, certos "defeitos", que nos torna singulares e ricos. É preciso haver um certo equilíbrio e bom senso.



O que estou dizendo não é para acharmos qualquer coisa linda, mas sim para ampliarmos nossa capacidade de ver beleza nas pessoas, para além de uma idealização grega que, embora muitos a alcancem, é efêmera.

As nossas imperfeições são o que fazem a nossa beleza. Já dizia a Torre de Pizza.Pena que poucos reconheçam isso e se percam numa busca infinita pelo seu macho simétrico no corpo e na personalidade. Boa sorte!



Amor e Paz

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