segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O homem se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne - Jesus e o casamento heterossexual

"Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne; e assim já não serão dois, mas uma só carne". Marcos, 10, 6-7

Já perdi a conta de vezes que li heterossexuais usando essa frase para legitimar sua união e deslegitimar outras formas de casamento. 

Segundo conta a Bíblia, foi o próprio Jesus quem teria dito isso e, conforme podemos ver, suas palavras são prístinas.

Mas será que ele quis dizer que ele parece ter querido dizer?



Em primeiro lugar devemos levar em consideração que Jesus falava por parábolas e suas frases sempre tem um "algo a mais", algo que vai além da superfície. 

Teologicamente, temos um problema aí. Se Jesus fala que o casamento deve ser heterossexual e ambos - o homem e a mulher - devem ser uma só carne, como fica os homossexuais? Sabemos que "Deus nos criou" assim. Como é que pode Deus criar pessoas que seriam condenadas a ficarem solitárias pro resto da vida?

A frase, como quase tudo na religião cristã, não faz sentido!



Aliás, se você é heterossexual e está lendo esse texto, gostaria de saber COMO RAIOS É que um marido pode se tornar uma só carne com a esposa? Como se dá isso no cotidiano? Você já viu isso acontecer COM ALGUM CASAL AO SEU LADO?



No entanto, proponho uma outra interpretação para essa frase, resgatando uma tradição mística muito antiga.

A ideia de um casal primordial não remonta a uma realidade objetiva, um Adão e Eva de carne e osso que existirão, até porque isso é impossível por razões biológicas.

A ideia do casal, no misticismo ocidental, faz referência à mente objetiva (o consciência) e à mente "subjetiva" (o subconsciente). Nesse subconsciente, que acessamos por meio da meditação, prece, exercícios místicos, é que onde reside a inspiração interior, nosso sentido artístico, nossa intuição e nossos poderes místicos latentes.



No processo de desenvolvimento místico, um dos objetivos do estudante é fazer com que a mente consciente acesse ou tenha capacidade de acessar o seu subconsciente como forma de acessar os mistérios maiores da Vida. Quando essa união entre o consciente e o subconsciente é permanente, se processa um verdadeiro "casamento alquímico". 



Quando a união entre as duas mentes é permanente e perfeita, a cada pergunta que fazemos ao nosso "Mestre Interior" acessando o subconsciente, temos a resposta quase que imediata. Também, quando esse casamento se processa, temos o desenvolvimento de poderes latentes como telepatia, vibroturgia, ver auras, clariaudiência, entre outros que não convém comentar. Além disso, apresentamos uma enorme serenidade perante as questões da vida.



Esse é, do ponto de vista místico, o grande casamento que deve os seres humanos realizarem - no interior de sua consciência.

O problema é que a crentalhada não leva em consideração a consciência em nenhuma abordagem de sua filosofia. Para eles, a abordagem é uma realidade material fora deles próprios - um casamento heterossexual. 

Em todos os discursos místicos, mitos religiosos, lendas ou ainda contos, o foco é e sempre será a nossa consciência e a nossa mente. 



Assim, sob essa perspectiva mística, faz todo sentido considerar as palavras de Jesus:

"Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão os dois uma só carne; e assim já não serão dois, mas uma só carne". Marcos, 10, 6-7

Significa que o homem (a mente consciente) deve deixar a segurança do seu pai e da mãe - aqueles dois que sempre lhe dão as respostas sobre tudo - e uma hora buscar sua mulher (a mente subconsciente). E os dois devem se unir em uma só carne (um só ser). Dessa forma, um indivíduo passa a ser responsável para adentrar à vida adulta, ou seja, dar suas próprias respostas ao mundo e buscar dentro de si mesmo a solução para os seus problemas, deixando a segurança do pai e da mãe. 



Como podemos ver, as palavras de Jesus sempre trazem um "algo a mais".

Mesmo que muitos heterossexuais cristãos não concorde com essa visão e prefira a outra, porque os coloca num patamar mais superior, o tempo que algumas dessas pessoas perdem com o casamento homoafetivo, tenho certeza que é o tempo que elas NÃO PERDEM tentando fazer do seu próprio casamento "uma só carne". 

Aliás, aposto que muitos heterossexuais cristãos, também brigam no matrimônio. Assim, o tempo que perdem perseguindo a vida dos outros, é o tempo que não dedicam tentando viver seus próprios ideais.

Espero que os LGBTs cristãos que leram este texto, possa preencher suas almas com um novo patamar de compreensão das palavras de Jesus, sem ficar se atormentando, achando que seu casamento não vale nada perante "Deus". O que Jesus quis dizer certamente foi outra coisa.



Essa nova interpretação traz uma abordagem individual das palavras de Jesus, de modo que faz dela um instrumento de meditação e evolução interior por meio de um casamento místico que ocorre dentro de você. 

Nessa perspectiva, a interpretação das palavras de Jesus deixa de ser uma forma de fazer os outros engolirem um ideal de relacionamento, destruindo a diversidade criada pela própria natureza. Aliás, acredito que a ideia de fazer do seu casamento uma forma de união em uma só carne seja asfixiante até para heterossexuais. Quantas e quantas pessoas não tiveram suas vidas destruídas porque, com base numa interpretação estúpida, nunca se divorciaram de seus maridos.

A concepção mística, além de humanista, é universalista e cabe em todos os seres humanos e não somente em heterossexuais.



Amor e Paz

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