quinta-feira, 23 de junho de 2016

"Não sou obrigado a nada e ninguém pode me oprimir" - Será?

É cada vez mais comum eu ouvir militantes sociais dizerem a frase do título deste texto. É feminista, mulher, LGBT e um monte de jovens outros que ficam a repetir "não sou obrigado a nada", alegando que você obrigar alguém a fazer uma coisa que ela não queira é "opressão".

Gostaria de tecer algumas considerações sobre este pensamento que se repete amiúde por aí. Antes, porém, é preciso considerar que muitas cobranças sociais são injustas e de tal forma opressoras que anulam qualquer perspectiva de individualidade e felicidade. Trata-se de uma pessoa que é forçada a casar com quem não se quer, que tem que vestir roupas e adotar um gênero que não a faz feliz ou ainda seguir uma profissão que não tem nada a ver com ela. Portanto, quando muitas pessoas afirmam que não são obrigados a nada, isso faz muito sentido dependendo do contexto em que se está.


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Apesar dessas ponderações e apesar de reconhecer que não podemos, em alguns casos, ser obrigados a fazer isso ou aquilo, a frase "não sou obrigado a nada" me parece de um infantilismo ímpar. Ela parece ser o resultado de uma síndrome de Peter Pan muito característico das sociedades atuais.

Como assim ninguém é "obrigado a nada"? Se nós nos aprofundarmos um pouco na história de vida dos indivíduos que falam isso, veremos que a maioria ainda mora com os pais, ou é solteiro, ou, ainda que tenha atingido independência plena, se mostra relapso em suas obrigações cotidianas.

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Naturalmente não é nenhum demérito morar com os pais, ainda mais nessa época de alugueis altos e incertezas econômicas. Mas falo isso porque no dia em que se põe o pé pra fora de casa e se vai morar sozinho ou se casar, a pessoa percebe que essa coisa de "não sou obrigado a nada" é absolutamente fantasiosa.  Na vida somos obrigados a muitas coisas - a pagar contas, abastecer a casa, administrar nossas vidas, nossos estudos, cuidar da nossa família, respeitar nosso companheiro (a) e muitas outras coisas.

O sentido de obrigação e dever implica necessariamente a diminuição das necessidades individuais do ego e que se desenvolva na mente uma maior percepção da dimensão coletiva do nosso "eu". Em outras palavras ser adulto significa deixar de se fazer o que se quer para fazer o que se deve em prol da família, da comunidade e da nação. Foi graças aos deveres a que os indivíduos são acometidos que muitas coisas foram construídas. 

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Imaginem só se uma mãe deixa de cuidar do filho porque introjetou que "não é obrigada a nada", ou ainda que cidadãos deixem que seu país seja invadido por forças inimigas e não se alistem militarmente porque "não são obrigados a nada", ou ainda que um médico deixe de atender uma travesti com HIV porque "não é obrigado a nada". Desculpa, mas acho que a vida não é assim. 

Por fim, embora reconheça que muitas cobranças são injustas, cada vez mais penso que essa frase "não sou obrigado a nada" se tornou um artifício retórico para que os indivíduos não cumpram com seus deveres e suas obrigações e vivam em uma eterna adolescência, de balada em balada, de parceiro sexual em parceiro sexual e de droga em droga. Quando se tem vinte e poucos, tá valendo... Mas quando passamos dos trinta, querer se furtar de um relacionamento estável com a obrigação de dar satisfação e de não poder satisfazer todos os seus apetites, me parece algo tenebroso tanto pro indivíduo quanto para a sociedade. 

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Cada vez mais vejo essa retórica contra "opressão" como fruto de mentes infantis. Toda e qualquer tipo de obrigação social é cada vez mais vista como "opressora" e os indivíduos devem se "libertar dessa opressão e viverem livremente". Esta me parece ser uma visão absolutamente ingênua da realidade. Quando se entra para a vida adulta se percebe imediatamente a "opressão" que existe no mundo por si só. Tem gente que acha essas "opressões" que nos tolhem liberdades são socialmente construídas. Visão estúpida, a meu ver. O simples fato de existirmos já nos impõe uma série de obrigações.

Ressalto que quando falo em vida adulta não estou falando em idade, mas sim daquele momento da vida em que temos que caminhar financeira e emocionalmente com nossos próprios pés. 

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Do ponto de vista LGBT, me assusta um pouco um tipo de leniência e infantilização em vários indivíduos travestidos de "luta contra opressão". Já vi pessoas hetero e homossexuais terminarem relacionamentos longos só porque estavam incomodadas com o fato de ter que dar satisfação para o companheiro (a) de onde ia. Quer coisa mais infantil do que isso?

A vida coletiva impõe obrigações para todo mundo. Querer escapar disso e posar de "pra frentex e liberalex" é viver num mundo paralelo. Desculpa, mas você é obrigado a muita coisa, inclusive a tolerar aquele seu chefe chato. Essa hyperliberdade contemporânea em que as pessoas acham que não têm obrigação de nada pode se desenrolar facilmente na anarquia. 

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Obviamente não estou lançando qualquer tipo de julgamento moral sobre os que exercem sua liberdade livremente. E tampouco ataco coisas como "poliamor", "namoro aberto" entre outras coisas. Minha crítica está num nível muito acima e abstrato. Apenas chamo a atenção de que todo e qualquer exercício de liberdade impõe certas responsabilidades.

Quando alguém me diz que "não é obrigado a nada" mas não tem obrigação nenhuma, logo percebo que esta situação só se configura porque quase sempre alguém está por trás cumprindo as obrigações por aquela pessoa. Para fazermos o que a gente quer, sempre será necessário fazermos negociações. Para escrever estes textos, por exemplo, tenho que já ter feito as tarefas do meu trabalho profissional para então negociar espaços de liberdade de expressar meus pensamentos. Não dá para simplesmente dizer que "não sou obrigado a nada" e passar o dia inteiro escrevendo.

Mas naturalmente este é só o meu ponto de vista.

E vocês? O que têm a dizer sobre isso?

Amor e Paz

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