segunda-feira, 18 de julho de 2016

A auto-descoberta, a busca do "Eu" e os LGBTs

São inúmeras as correntes de pensamento que defendem que seus seguidores possam descobrir um "Eu maior" ou o "verdadeiro Eu". Dentre elas estão as versões ocidentais do budismo, o hinduísmo e crenças esotéricas e de New Age que abundam por aí. Oferecem a "descoberta do Eu" como um novo produto espiritual. Há, inclusive, pessoas de classe média que fazem longas viagens para o Tibet, pro Peru ou pra Santiago de Compostela em busca desse tal do "Eu".

Aparentemente é principalmente em linhas de pensamento oriental que essa tal de "descoberta do Eu" se apresenta mais forte. No cristianismo e no islamismo, esta nem é uma questão colocada.

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Mas afinal, o que seria esse "Eu superior", a "auto-descoberta" e o "verdadeiro Eu" e como isso se relaciona co os LGBTs?

Para iniciar esta conversa, saliento que há uma contradição em determinados ensinamentos religiosos acerca do assunto.

Muitas correntes religiosas orientais se adaptaram ao "mercado espiritual" daqui e oferecem novas linhas de pensamento aos seus membros e estes, por sua vez, acreditam no que estão oferecendo. No entanto, um estudo um pouquinho mais profundo vemos que muitas das correntes de pensamento oriental que chegam aqui no Ocidente como se fossem produtos revolucionários são, na verdade, uma corrente específica de pensamento. No Oriente, o que chamamos de budismo, hinduísmo, meditação etc são um universo do mais variado possível, cheio de correntes e opiniões divergentes tal qual as diferentes seitas cristãs.

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Assim, essa tal de "descoberta do Eu" é um conceito que, dependendo da linha de pensamento que se segue, pode ter diferentes interpretações.

A primeira interpretação seria a de que o "Verdadeiro Eu" seria justamente a AUSÊNCIA de "eu"! Ou seja, descobrir esse "Eu maior" seria atingir, por meio de meditação e práticas místicas, um estado mental de não-Eu, no qual se cria um influxo entre o indivíduo e a "mente universal". Esse "vácuo" permitiria uma ligação direta da pessoa com o universo ou com sua própria alma, criando-se, assim, uma união temporária entre estas duas formas de consciência. 

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Essa forma de ver está ligada a uma desconstrução da noção de indivíduo e de individualidade. Conforme vamos desconstruindo os impulsos do nosso Ego, nossas deficiências e nossas manias, tornamos nossa mente mais disciplinada e mais voltada às causas de nossa Alma. Um exemplo dessa primeira interpretação está no caso da vida monástica. Ao ingressar numa ordem monástica, o monge deixa o seu "Eu" para trás e passa a ser uno com aquela linha de pensamento. Ao fazer isso, ele atinge níveis de consciência cada vez mais elevados. Para tal, deve-se haver uma diminuição dos apetites e desejos de nosso "Eu físico" para haver uma aproximação maior com o nosso "Eu espiritual".

A segunda interpretação desse "Verdadeiro Eu" está muito mais ligada à noção ocidental de indivíduo, também próxima da nossa psicologia. Assim, descobrir o "verdadeiro Eu" é sobretudo conhecer seus medos, seus anseios, suas questões, eliminar seus traumas e ter uma vida mais harmônica; é descobrir o que se gosta de fazer, o que lhe traz prazer e que pode lhe dar a felicidade. Em outras palavras, é quando o indivíduo está no centro de si mesmo. Há até a velha expressão "Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu e depois o outro". Nesse pensamento não há um "Eu maior" espiritualmente dotado, mas apenas a busca do "Eu" e de sua trajetória individual.  

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Como vemos, temos duas linhas de interpretação sobre o tal do "Eu" que são contraditórias. Mas afinal, o que podemos dizer sobre elas?

A meu ver, a primeira interpretação peca por um fato bem simples - seu pragmatismo. Esperar que, no caos da vida urbana com todas as obrigações econômicas e familiares que todo mundo tem - um indivíduo simplesmente busque a "ausência de Eu" para se fundir a uma espécie de estado de consciência superior é simplesmente IMPOSSÍVEL. Ou as pessoas vivem, ou as pessoas buscam esse tal do "Eu maior".

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Por outro lado, a segunda interpretação também peca pelo fato de que desconsidera os aspectos espirituais da vida e dá muita ênfase a um "Eu" que, embora possa ser nossa fonte de felicidade, é também perene e falho. Além disso, tenho sérias desconfianças sobre as promessas de certas correntes psicológicas de que podemos viver sem "nenhuma questão" na nossa psiqué.

Do ponto de vista LGBT, essas duas formas de se conceber o Ego ou o "Eu" levam a caminhos totalmente distintos. Sob a primeira interpretação, a de que um "Eu verdadeiro" estaria privado de características e desejos físicos e muitos mais próximo de uma alma, levaria aos LGBTs a um "não Eu", praticamente fazendo com que o indivíduo deixe de ser LGBT. Isso porque nossa sexualidade, nosso gênero, a pessoa com quem desejamos nos casar, nosso modo de vestir e nos colocarmos no mundo está muito mais ligado ao nosso "Eu material". Logo, quase é possível concluir que uma "aproximação com um suposto Eu espiritual" implica necessariamente em deixar de ser quem somos!

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Consegue, o leitor, perceber a armadilha que pode ser essa tal "busca do Eu" para os LGBTs?

Por outro lado é inegável que a concepção ocidental de "Eu" é muito mais próxima do que os LGBTs buscam para si. Encontrar o "Eu" é sair do armário, viver uma vida de acordo com nossos desejos mais caros, encontrar um amor, construir uma família etc. Reprimir-se, viver uma vida de mentiras e aparências e fingir ser o que não se é, é não estar em harmonia com o "Verdadeiro Eu".

Assim, vemos que é nessa concepção de busca por um "Eu" que podemos ter liberdade e existir. 

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Ainda há outra problemática nessa questão que pouca gente percebe. Se a busca por um "verdadeiro Eu" implica em nos aceitar como somos, como devemos enfrentar nossas características negativas? Se eu sou agressivo, devo mudar quem eu sou por esforço pessoal ou eu devo simplesmente aceitar quem eu sou pois esse seria o meu "verdadeiro Eu"? 

Como vemos, essa questão do Ego e a busca por um Eu traz muitas nuances. 

Pessoalmente creio que uma fusão das duas formas de encarar o Eu seja o mais saudável a seguir. 

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Deve haver um delicado equilíbrio entre o "não Eu" que se atinge por meio de meditação, prece e outras formas de "sair de si" (como chás alucinógenos, por exemplo) e a busca por um "Eu" que seja quem nós de fato somos, nossa personalidade e nossas características.  Descobrir o "Eu" é descobrir as notas que nos fazem vibrar interiormente.

Essa coisa oriental de que para se buscar um "Eu maior" deve-se esvaziar totalmente um suposto "Eu menor" ligados à materialidade da vida me parece totalmente despropositada para a vida do homem comum. Isso não quer dizer que não possamos retirar momentos de nosso dia para um esvaziamento de nossa mente e um entregar-se a um Eu maior, um vazio mental. Inclusive, creio que esses períodos de harmonização por meio de prece e meditação ajudam a harmonizar melhor o Eu menor.

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Igualmente, a ideia de aceitarmos como nós somos, de forma alguma implica em naturalizar nossos comportamentos mais negativos. Penso que a força da vida é essencialmente construtiva e, por mais que algumas características sejam parte de nossa personalidade, devemos sempre estar dispostos a fazer nosso melhor de modo a construir uma relação harmônica com nós mesmos, com os outros e com o nosso meio (embora eu reconheça que nem sempre isso é possível e que às vezes um exercício de força e autoridade sejam necessários). 

Finalmente, apesar de crer que é possível trabalhar com as duas formas possíveis de se interpretar esse tal do "Eu maior", "Eu interior", "auto-descoberta" etc, creio que o conceito de Eu e suas interpretações são extremamente abstratas, aleatórias e contraditórias. Essa suposta hierarquia entre um "Eu maior" e um "Eu menor", um "Eu material" e um "Eu espiritual", entre "Ego" e "Alma Universal" cria muita confusão no modo como os indivíduos devem conduzir suas vidas.

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E vocês, o que têm a dizer sobre isso?

Amor e Paz

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