sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Resposta ao leitor Diogo Vasconcellos e esclarecimentos sobre o blog

No texto que escrevemos, intitulado "O estoicismo e os homossexuais" (http://evolucaolgbt.blogspot.com.br/2014/03/o-estoicismo-e-os-homossexuais.html?showComment=1472792521152#c1149847684187886393), o leitor Diogo Vasconcellos desenvolve uma grande crítica ao nosso texto. Faço questão de transcrever todo o seu pensamento e faremos um comentário logo abaixo.

"Apesar de criativa, a tentativa de vários teólogos heterodoxos, bem como filósofos e pensadores simpatizantes do movimento LGBT,de afirmar que que teologia paulina sofreu influência do estoicismo é tão rasa e superficial, intelectualmente, como deduzir que alguém é consagrado a alguma entidade do candomble por usar camisa vermelha na sexta feira. Veja bem, linhas de raciocínio indutivas como a sua, cheias de argumentos non sequr, certamente são mais do que suficientes para converter a grande massa, mas o colega não deve se esquecer que há mentes pensantes no lado conservador que certamente possuem todos os recursos para desarmá-la. 

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O conceito de "ordem natural" é cara aos estóicos, contudo não é termo sequer cunhado por eles como você mesmo já bem temporizou. Afirmar que Paulo sofreu qualquer influência do estoicismo embasando-se em fraseologias e expressões idiomáticas é uma idéia no mínimo sofrível (para não dizer intelectualmente suspeita do ponto de vista da honestidade). Lembre-se que o que Paulo faz nos capítulos 1 e 2 é uma diatribe. Isto é, uma técnica de retórica agressiva que se vale de um interlocutor imaginário, tendo como finalidade chocar e confrontar seus ouvintes com alguma verdade moral. Um recurso de oratória didático e muito comum usado por vários políticos e oradores não estóicos. Lembre-se que estamos num contexto de um mundo romano helenizado, e certas idiossincrasias são perfeitamente normais em qualquer época.

Se o colega aplicasse essa sagacidade sofista também na hermenêutica, numa leitura simples dos três primeiros capítulos dessa carta, você, como qualquer outra pessoa minimamente alfabetizada, chegaria a fatídica conclusão que o termo "uso natural" ou mesmo o termo "contrário à natureza" é aplicado por ele no que tange àquilo que já havia sido estabelecido na criação (leia os capítulos 5 a 7 todo). Dessa forma, a exegese da mensagem não está na etimologia da palavra, mas sim no conceito nela imbuído. Essa prática de reaproveitamento de palavras com mudanças de conceitos é extremamente comum em toda teologia cristã neotestamentária. 


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Exemplo disso é o próprio termo "logos", citado por você: enquanto no conceito neoplatônico, a temos com um significado, na teologia cristã a mesma palavra recebe outra conotação. Isso é uma mera questão de interpretação de texto simples, sem muita elaboração. E é por isso que toda essa sua teratologia argumentativa me assusta. Ela não apenas parece ignorar o óbvio, mas parte do mais improvável sendo admitido como fatual e se aproveita da ignorância histórica da maior parte dos leitores.

Caso, ainda assim, insista em classificá-lo como estóico, todo o estoicismo de Paulo terminaria por aqui . Note que não há qualquer espírito imperturbável em Paulo no que tange à sua teologia, muito pelo contrário. Esse é o homem que, ao enxergar seu conflito interno com sua natureza pecaminosa exclama "o bem que quero esse não faço, mas o mal que não quero esse faço. Desventurado homem que sou!!! Quem me livrará do laço dessa morte? ". Se isso é ser impassível e imperturbável, Paulo deveria ter sido o pior e mais fracassado dos estóicos... 


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Não obstante, ao longo de sua dissertação vc distorce paulatinamente conceito do "natural", levando indutivamente o leitor por sendas que em nada se comunicam nem com o conceito estóico nem tampouco com o conceito cristão. Coca-Cola? Quimioterapia? Desde quando qualquer desses conceitos se aplicam a esse tipo de "anti naturalidade"? Um estóico não deixaria de beber Coca-Cola, da mesma forma que um cristão não deixaria de fazer quimioterapia se necessário fosse... Mas uma vez sua parcialidade e falta de raciocínio lógico proposital me assustam.

Ademais, o conceito de aceitação da natureza feita pelo colega também é bem limitado. O cristianismo não defende a idéia do "deixa a vida me levar", endossando tudo que é instintivo e natural do homem como algo não combativel. Diferente disso somos exortados continuamente a lutarmos "contra a nossa própria natureza" (Colossensses 3) continuamente. Haja vista sua corrupção e radical depravação (Romanos 7).
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Ademais, sua afirmação de que a visão das relações heterossexuais como sendo o vies natural é prototipamente grega é no mínimo preocupante. Na verdade essa visão de mundo, amigo, é tão antiga como o próprio mundo. Por tratar-se de algo não apenas majoritariamente observável na natureza como também o princípio mantenedor do Estado. Ora, o Estado apenas existe porque existem pessoas. E o Estado só poderá continuar a existir se pessoas continuarem a existir. E pessoas só continuarão a existir se houver procriação. E a procriação é apenas possível nas relações heterossexuais. Dãaaaaa. 


Mesmo os gregos, em sua prática preferencialmente homoafetiva sabiam disso e, por saberem dessa verdade, apesar de manterem a pederastia ainda adotavam como conceito de família o chamado "núcleo conservador": Homem, mulher e prole. Leia as obras dos próprios sofistas e notará que essa curiosidade social estava indiscutivelmente na cultura helênica. 

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Por fim, o mais risível. Paulo era um judeu grego???? O colega sabe o que é um fariseu? O farisaismo era o remanescente mais ortodoxo da fé judaica no chamado "período interbiblico". Era uma resistência à helenizacao do judaísmo imposta por Antioco Epifanio durante o regime do governo seleucida fazendo um contra ponto com os saduceus. Esses últimos sim eram judeus helenizados. Já Paulo chega ao ponto de se denominar "fariseu de fariseus".

Amigo, não tente tornar simplista uma coisa que não é se valendo de argumentos pseudo dedutivos como esses. Se quer ser levado a sério, será necessário mais do que uma verborragia de citações descontextualizadas e indutivas. Será necessário respeitar a inteligência de seus leitores. Forte abraço. Fique com Deus".


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Isso posto, gostaria de prestar alguns esclarecimentos não só para o Diogo, como para todos os leitores.

A crítica acima é justamente o modo como NÃO buscamos raciocinar. É um tipo de raciocínio típico dos cristãos mais intelectualizados que buscam analisar os pormenores da lei fazendo uma verborreia.

Não se trata de uma crítica agressiva. Na realidade foi um texto muito bem escrito, com bastante erudição e ricamente informativo. Fato pelo qual parabenizamos o leitor. 

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Mas há detalhes aí. A crítica dele envolve a dissertação de um texto que mistura fé com pensamento acadêmico. O que queremos ressaltar é que nunca quisemos fazer uma crítica acadêmica. Não queremos adentrar na exegese dos textos e entender os pormenores do conceito de natural ou de logos usado por Paulo. 

Não que estes estudos não sejam importantes. Eles apenas não são o nosso foco.

Nosso foco é a ideia-chave e como essa ideia afeta o cotidiano e a vida real das pessoas reais.

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Portanto, não pretendemos nos perdermos em intelectualidades ou interpretações sobre o que o outro disse porque o nosso foco não é a "real" interpretação do outro. Nosso foco é como essa ideia ecoa até os dias de hoje e como ela afeta a vida dos LGBTs e que tipo de contribuição os LGBTs podem dar na discussão sobre essa ideia. 

No pensamento de Diogo Vasconcellos, ele fala que nós distorcemos o conceito de "natural". Só que ele não define o que, então, é "natural". E mesmo que definisse, o objetivo do blog é nos perguntarmos se essa definição do que é natural dada por Paulo de Tarso ou por Diogo Vasconcellos nos serve enquanto LGBTs. 

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Portanto, embora agradeçamos os conhecimentos que o amado leitor dividiu conosco, nossa linha de pensamento é outra. Não queremos pormenores. Nós queremos a ideia em si. Se a ideia de natureza teve origem nos estoicos, em Paulo, no Egito ou na conchinchina, isso pouco nos importa de fato. Fazemos alguns apontamos históricos só como ponto de partida para o início do raciocínio. 

Portanto, não queremos saber se Paulo foi influenciado pelos estoicos ou por quem quer que seja. O que queremos buscar realmente é a ideia HOJE, o aqui e o agora, a essência da ideia e problematizar como ela atinge os LGBTs de fato. Pouco nos importa se Paulo de Tarso fez uma diatribe neotestamentária helênico estoica. 

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Na realidade consideramos que essa forma de abordar conceitos teológicos é excessivamente distante da vida real. A vida real é feita de uma IDEIA + COMO ISSO SE APLICA NA VIDA PRÁTICA. Podem nos apresentar toneladas de livros sobre exegese bíblica. Ainda que sejam culturalmente interessantes, eles não nos dizem muita coisa. Para nós, consideramos isso um MEIO para se desbastar o pensamento, mas estas análises não são um FIM em si mesmo. 

O debatismo intelectual é muito enriquecedor e legal. Mas ele apenas não é o nosso foco. Se erramos em nossas análises, que seja. Errar também faz parte do exercício do pensamento. 

Amor e Paz

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