segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A ideia de missão e os LGBTs

A ideia de missão é muito cara ao pensamento religioso. Os cristãos que vão "salvar" almas aqui e acolá até hoje chamam a si mesmos de missionários. A retórica evangélica é cheia da ideia de que as pessoas têm missões a cumprir.

Teologicamente, tal ideia provém de um sistema teológico que pressupõe que existe um Deus que se preocupa com cada indivíduo e este indivíduo, por sua vez, pode dialogar diretamente com Deus. Nesses diálogos, as pessoas muitas vezes acreditam que Deus fala ou falou com elas, conferindo-lhes uma missão, que pode ser converter os outros, ajudar na igreja ou salvar pessoas da fome e da miséria por meio da caridade. 


No que se refere aos LGBTs, essa ideia lhes afeta particularmente. Quantos não são por aí, aquelas pessoas que acreditam que a missão delas é lutar contra o casamento homoafetivo e defender a "família tradicional"? Na África, os pastores tele-evangelistas americanos, estão fortemente imbuídos da ideia de que Deus lhes deu a missão de contribuir para as leis anti-LGBTs que existem no continente.

Do ponto de vista prático-racional, a ideia de missão é bastante questionável. Isso porque uma pessoa pode alegar que Deus deu a ela a missão de ajudar os mais pobres fazendo caridade. Outros alegam que Deus deu a elas a missão de abrir uma igreja tal. Outros ainda alegam que devem ajudar os mais pobres não pela caridade, mas ajudando os pobres a montarem seu próprio negócio. Ou seja, a tal missão dada por Deus parece variar de igreja para a igreja. 


Ora, uma vez que supostamente estamos falando de um Deus único, como é possível que esse mesmo Deus dê tantas missões diferentes para cada um? E o que dizer de uma pessoa que alega que Deus deu a ela a missão de lutar pelos direitos LGBTs porque isso é a coisa certa a fazer? Ou seja, trata-se de uma missão diferente daquele que alega ter a missão de criar leis anti-gays na África.

Parece-me bem razoável crer que a ideia de missão é um argumento teológico para justificar posições políticas. Ou seja, ele é mais um argumento sociológico e político do que teológico em si. No entanto, do ponto de vista da psicologia humana, acreditar que estamos imbuídos de uma missão de caráter divino, dá significado a nossas ações e nos coloca em sintonia com uma certa transcendência naquilo que fazemos, o que, naturalmente, é válido.


Será mesmo que nosso coração nunca pode ser tocado por alguma meta de vida que sentimos que faça parte de algo "maior" ou "espirituoso"?

Do meu ponto de vista, creio que não é possível falar se "Deus" nos deu uma missão em particular. No entanto, acredito ser relativamente saudável acreditarmos que existe uma missão na vida, mesmo que seja fruto de nossa cabeça e não de um "Deus". Isso traz horizontes e significados.


Ressalto, no entanto, que é sempre necessário certa desconfiança ao associarmos nossos objetivos de vida a "Deus". Isso nos torna sábios e refratários aos picaretas da fé e a certos fanatismos totalitários de acreditarmos que estamos imbuídos de uma elevada missão e com isso devo submeter toda a humanidade a meus ideais. Na realidade, quando se trata de fé, crenças e espiritualidade, devemos sempre acreditar desacreditando, confiar desconfiando, nos entregando com ressalvas. Em matéria do invisível, desconfiar um pouco do que você próprio acredita me parece sempre ser um caminho saudável.

E vocês, qual relação têm com a ideia de "missão"? Acreditam que individualmente ou institucionalmente há "missões" dadas por seres espirituais? Qual seria a sua missão na vida, leitor? Tem alguma resposta para isso?


Amor e Paz

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