segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Existe um indivíduo no cosmos?


Para nós, é extremamente natural que quando um indivíduo está com problemas, ele peça ajuda a Deus. Ele está com problema, vai lá, pede e "tchun", o problema é resolvido. Quando ele não é resolvido, muitas vezes o indivíduo briga com Deus. A questão, no entanto, é mais profunda do que parece, pois cabe nos perguntarmos não porque Deus nos ajudou, mas sim "há mesmo um Deus que se preocupa comigo nesse mundo tão diverso e cheio de gente?"

Certa vez eu estava no metrô e vi um cartaz que pedia para as mães fazerem exames pré-natais a fim de diminuir a mortalidade infantil. Não pude deixar de pensar que antigamente as crianças morriam mais de doenças bem simples. No microcosmos do individual daquelas mães que perdiam seus filhos, sempre havia respostas do tipo "Deus quis assim", "Deus levou ele" etc. Em outras palavras, as crenças teológicas entravam para significar um fenômeno que era absolutamente normal na natureza e indiferente às nossas dores enquanto indivíduo.



Carl Jung, no livro "Psicologia e Religião Oriental", fala logo no início da obra que o homem ocidental está acostumado a ver um Deus e um indivíduo, mas que o universo ao seu redor é regido por forças cósmicas indiferentes a ele. Essa visão de que no universo existem forças cósmicas indiferentes a nós é uma crítica ao pensamento grego-cristão de que o universo é regido por uma ordem (ideia grega) e que nessa ordem há um Deus que cuida da gente individualmente (ideia cristã). Jung repara que o pensamento oriental é bem diferente do ocidental quando no Oriente pressupõe uma indiferença do universo para conosco (quando o autor fala de Oriente, se refere ao budismo, xintoísmo e ao hinduísmo, não a um oriente necessariamente geográfico).

Para referendar esse pensamento de Jung, destaco que é muito comum em crenças orientais a ideia de que o que chamamos de "eu" é ilusório, sendo que o Eu pertenceria à grande ilusão chamada de Maya. Essa visão é bem diferente das noções teológicas ocidentais. Nós costumamos ser tão apegados ao "eu" que acreditamos que ele sobrevive após a morte. E lá no plano espiritual vamos encontrar outros "eu", no caso, a nossa mãe, nosso pai, nossos irmãos e até mesmo nossos cachorros. 



Essa questão do "Eu" fica mais abalada quando temos uma cabeça voltada para as ciências sociais, que procuraram matematizar os fenômenos sociais e transformá-los em números. Assim, a dor da mãe que perdeu o filho pra sarampo na década de 20 porque "Deus o levou", fica substancialmente transformada quando por meio de políticas públicas de saúde, o Estado acaba com o sarampo e praticamente zera o número de crianças que morrem dessa doença. Ou seja, Deus levava antes os bebês por meio do sarampo, mas não leva mais? Foi a força de Deus que matou ou curou as crianças, ou foi a luta dos homens para erradicar doenças e mudar as estatísticas geradas pela natureza que esse mesmo Deus que olha para os indivíduos, criou?

Assim, quando olhamos de cima, sob o ângulo das estatísticas sociológicas, todas as nossas alegrias e dores individuais se tornam números e o resultado de políticas públicas ou ações de empreendedores. Será que existe algum espaço para um "eu individual" nessa equação? E mais ainda, tem algum espaço para Deus aí?



Quando um homem fica alegre por conseguir um emprego, quando uma menina fica alegre por ter passado numa faculdade pública, ou quando uma pessoa fica alegre pela cura de uma doença, muitas vezes creditam isso a Deus. No entanto, eles só conseguiram isso porque alguém resolveu abrir uma empresa e gerar empregos, alguém resolveu abrir uma universidade e alguém resolveu produzir remédios para curar determinada doença. O "eu individual", portanto, se insere num todo muito maior e que transcende em muito o tal do "Eu". Claro que sempre se pode argumentar que Deus inspirou essas pessoas a abrir empresas, universidades e pesquisar a cura de doenças, mas ainda assim, acho bem complicada essa perspectiva, na medida em que os indivíduos responsáveis por isso têm diferentes crenças religiosas.

Cada vez que entro no metrô ou no trem e vejo aquela massa de pessoas, ou ainda vejo uma cena da Índia e da China e vejo aquela multidão de gente, eu me pergunto: "será que existe mesmo um indivíduo do ponto de vista teológico? Será que existe um Deus universal que olha para as necessidades e para a história de cada uma dessas pessoas? Ou será que tanto Deus quanto a natureza são indiferentes a cada um deles?"



Reparem o leitor que cada indivíduo dessa massa humana de sete bilhões de pessoas faz uma oração a Deus pedindo coisas. Será que existe mesmo esse Deus pronto para atender às aspirações de sete bilhões de indivíduos? E o que dizer daquelas pessoas que morrem à míngua, sem ter atendido nenhum dos seus pedidos? Será que Deus não olhou por elas?

Além disso, fico imaginando os impactos para o planeta se Deus resolvesse atender aos desejos materiais destes sete bilhões de indivíduos. Imaginem o caos que seria! Não haveria nem espaço físico para tal, na medida em que as necessidades de uns são bem diferentes das necessidades dos outros. Se cada uma dessas pessoas quisesse morar numa mansão, será que haveria espaço para tanta gente?



Por fim, ressalto que uma das características mais marcantes da crença cristã de Deus é justamente essa ideia de indivíduo. Há um Deus que se preocupa com a gente, o nosso "Pai", que cuida de nós e nos consola nos momentos de maior dificuldade. Essa, inclusive, é uma das foças do Cristianismo. Outras crenças apresentam uma perspectiva bem menos íntima e familiar do sagrado.

Do ponto de vista LGBT, a ideia de indivíduo nos afeta de muitas maneiras, afinal, ser LGBT é o que mais nos marca enquanto seres individualizados, diferentemente da massa heterossexual. 



E vocês, o que pensam sobre isso? Como vocês relacionam a ideia de indivíduo e de trajetória individual com as noções de Deus, natureza e sociedade? E como vocês relacionam a existência LGBT com a noção de indivíduo? Será que a existência dos LGBTs é uma indicação de que no universo existe de fato, um indivíduo?

Amor e Paz

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