domingo, 27 de novembro de 2016

A imigração e os LGBTs

O tema da imigração é um dos temas mais espinhosos que existem na discussão política. Alguns discursos dizem que os imigrantes roubam os empregos dos nativos. Outros dizem que a imigração é boa porque dinamiza a economia e traz empresas para os países que estão recebendo imigrantes. Pessoalmente creio que estas duas visões estão corretas em algum nível.

O debate da imigração, atualmente, ficou bloqueado por "intelectuais do bem" que acham que todo mundo que se opõe à imigração ou tem uma visão crítica sobre ela, é automaticamente racista e xenófobo. Esse tipo de adjetivação sistemática irrita demais as pessoas porque ao invés de trazer argumentos, querem ganhar a discussão no grito e na adjetivação. Esse tipo de postura de "intelectuais do bem", de adjetivar ao invés de discutir questões, só ajudam na eleição de Trumps, Le Pens e no Brexit. 

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Durante muito tempo eu achei que quem se opunha à imigração era xenófobo. Mas hoje, ao conversar com europeus e ler mais sobre o assunto, vi que a questão é um pouco mais complexa.

Mas o que podemos dizer sobre a imigração e como ela se relaciona com os LGBTs?

Em primeiro lugar, ela mexe com a própria ideia de Estado-Nação. A ideia de nacionalidade envolveu, historicamente, uma língua, religião, território e uma etnia em comuns. Só que podemos ver que a nacionalidade passou como um trator sobre as diferenças. No caso da França, por exemplo, havia várias línguas faladas naquele território que não o francês (a língua da Occitânia, da Bretanha, da Córsega etc). Foi preciso que se impusesse o francês oficial nas escolas, matando essas identidades regionais. Igualmente, se ser "francês" era ser católico, o que eram os protestantes? Finalmente, se ser francês era ser branco europeu, o que dizer dos negros que lá viviam?

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A ideia de nação foi criticada tanto à esquerda quanto à direita e, ainda que hoje seja mau vista, a nação ainda persiste, embora englobando as diferenças. As diferenças linguísticas, por exemplo, deixaram de ser perseguidas em prol de uma unidade e passaram a ser encaradas como parte da riqueza da língua. Hoje, ser negro e ser francês é perfeitamente possível. A nacionalidade passou a ser muito mais um documento de cidadania do que quaisquer características de indivíduos e povos. 

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A etnia/ raça, no entanto, ainda permanece um tema espinhoso. Enquanto que as sociedades americanas construíram nacionalidades pluriétnicas, as sociedades europeias ainda tem uma ideia bastante étnica quando evocam a nacionalidade. Assim, quando falamos "alemão", sempre vem à nossa mente um loiro de olhos azuis e branco. Quase ninguém pensa num "árabe" quando fala em "alemão", mesmo na Alemanha existindo um monte de árabes de nacionalidade alemã.

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Quando, no entanto, a imigração de pessoas de fora traz um risco de substituir em quantidade a etnica população nativa, como fica? Será que as pessoas devem, de fato, abandonar a ideia de uma nacionalidade étnica? 

Não pretendo dar uma resposta a essa pergunta. No entanto, ressalto que a resposta é mais complicada do que parece e o tema é explosivo. O Japão, por exemplo, controla muito fortemente a imigração para que a população nativa seja japonesa, pois o "Japão é dos japoneses". Igualmente, a Rússia e outros países cujas identidades étnicas são mais fortes, também exercem esse controle. Arábia Saudita igualmente controla a imigração com mãos de ferro. Trata-se de uma nação árabe e pronto.

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Não me parece que xingar de racista quem se opõe a uma substituição étnica do seu país seja uma via ideal. Penso que mais importante do que xingar as pessoas, é oferecer ideias que substituam outras. Talvez recriar a própria ideia de nação seja um ideal; mas ainda assim, este não me parece ser um processo que vá ser tranquilo. Identidades, territórios e sentimentos de comunidade e de pertença construídos por séculos não me parecem que vão ser substituídos da noite para o dia. 

A questão é bem complicada. Assim, se um polonês fala que a Polônia é apenas dos etnicamente poloneses, ele é visto como racista. No entanto, ninguém acha estranho que o nome oficial do Egito seja "República Árabe do Egito"; ou seja, um país inteiro é apenas dos etnicamente árabes! Ora, isso também não é racismo?

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No fundo, também, mesmo ouvindo o "outro lado" - os do que são contra a imigração - acho que as pessoas podem estar exagerando nesse negócio de substituição étnica. Pode ser que a extrema direita esteja hiperbolizando a questão só para chegar ao poder.

Se de fato, as sociedades europeias vão, de alguma forma, ser substituídas etnicamente, este me parece ser um processo que resultará ainda em muitos conflitos. Pessoalmente, acho que chamar os europeus de racistas por se oporem a imigração que venha porventura substituir a etnia predominante, mas achar natural que o Egito seja dos árabes, que a Rússia seja do povo rus ou que o Japão seja dos japoneses, cria instabilidades contundentes. 

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As questões acima podem surpreender alguns, mas estou discutindo todas as nuances do tema de peito aberto e alertando para os possíveis conflitos futuros. Elas surgiram principalmente quando me coloquei na posição de ouvir o outro.

Do meu ponto de vista, creio que as pessoas devem ser livres para imigrar e que o mundo sempre foi assim mesmo - encontro de diferentes povos, intercâmbio cultural e genético que transforma e cria novas nações. Assim, voltar a um passado idealizado de "nações puras" só resultará em sofrimento. No entanto, eu entendo consigo ouvir quem se oponha de alguma forma à imigração, pois não me parece ser justo que só se defenda sociedades multiétnicas para determinados países, no entanto, para outros países, se ache normal que o território inteiro seja propriedade de uma única etnia. Isso vai gerar inúmeros conflitos, se é que esse processo já não está acontecendo.

Assim, ressalto que mesmo eu considerando que esses movimentos anti-imigração são racistas e facistas, num determinado momento da minha vida, passei a ouvir os argumentos deles e a entender os conflitos que daí surgem.

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Não acho que quem se oponha à imigração seja automaticamente um racista, pois existem questões geopolíticas aí que frequentemente são ignoradas por "intelectuais do bem". Aliás, quem acha que se opor à imigração é necessariamente xenofobia, faz um verdadeiro papel de idiota útil, na medida em que em muitos casos a imigração é vista como uma forma sutil de dominação política e cultural de um povo sobre o outro.

A China, por exemplo, para consolidar o domínio sobre o Tibet, incentivou a imigração em massa de chineses han para a região, a fim de diluir a população local, substituir o idioma e quebrar a cultura e a religião locais e assim, romper qualquer senso de identidade e de coesão social entre os tibetanos.

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A Rússia, para consolidar seu domínio sobre os países bálticos, incentivou a imigração de russos para a região, sendo que hoje estes países são praticamente satélites da Rússia. 

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Nestes dois casos, se os tibetanos ou os povos do báltico se opusessem à imigração, estariam sendo racistas ou xenófobos? Ou seja, o cara que xinga as pessoas dessa forma, faz o papel de idiota útil que ajuda a consolidar a dominação dos mais fracos pelos mais fortes. Existem questões geopolíticas mais fortes do que simplesmente "fazer o bem" para os imigrantes. Em muitos casos a imigração é uma política de dominação sutil.

Pessoalmente eu creio que o mundo se globalizou e por mais que exista lugares com uma predominância étnica bem marcada, num futuro distante, com os contatos sexuais entre pessoas de diferentes partes da Terra, essas diferenças étnicas diluir-se-ão e se criará um povo sem diferenças tão bem marcadas, que podem constituir uma "nação". Mas até lá, creio que esse processo ainda trará muitos conflitos. 

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Precisei discorrer longamente sobre este tema para falar que sob o ponto de vista LGBT, há imigração possui inúmeras nuances. Para as minorias sexuais, o direito de imigrar pode salvar a vida deles de muitas formas. É imigrando que muitos de nós conseguem construir uma vida digna, fugindo das perseguições mais atrozes.

Por outro lado, a imigração traz perigos. Quando um país aceita uma leva enorme de imigrantes de culturas que têm uma relação violenta com mulheres, com cristãos e com LGBTs, isso pode alterar significativamente a cultura do país, tornando-a mais homofóbica do que já é. Mas o contrário também é possível. Existe a possibilidade que estes imigrantes, em contato com culturas abertas e tolerantes, ajudem a consolidar essa cultura de aceitação da diversidade sexual. Tudo pode acontecer.

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Isso traz questões filosóficas consideráveis. Na Suécia, por exemplo, um grupo de imigrantes iraquianos espancaram gays na saída de uma boate. Isso significa que todo iraquiano vá fazer o mesmo? NÃO. Absolutamente não. Até porque muitos cristãos suecos e brancos já devem ter feito o mesmo. Mas também não dá para taparmos o sol com a peneira e dizer que o lugar de onde essas pessoas vieram, a religião que têm e a cultura que trazem não influenciam de forma nenhuma as atitudes que eles têm com os LGBTs. Assim, sem chauvinismos e sem preconceitos ou generalizações, é necessário um debate sincero sobre as culturas que chegam aos países com a tal imigração. 

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Na Finlândia, o governo fez um curso para imigrantes islâmicos sobre como se deve tratar as mulheres no país. Algumas pessoas  disseram que um curso desses é racista e preconceituoso. É óbvio que nem todo imigrante de país islâmico é um estuprador em potencial. Isso é preconceito e generalização. Mas também não podemos negar que a cultura destes países têm uma relação muito diferente com o sexo feminino. Educar e informar, a meu ver, não é necessariamente racismo. É apenas o bom senso e esclarecimento. Nesse sentido, a luta contra o preconceito não pode suplantar o bom senso; do contrário, se as devidas alterações culturais não forem feitas, as pessoas vão ficar mais receosas e elegerão a extrema direita. 

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Do ponto de vista  mental, a imigração é boa para os imigrantes na medida em que ela expande a mente. Para um cara que foi criado numa cultura machista, patriarcal, fechada e hiperreligiosa do Afeganistão, ver um mundo tão diferente, aberto e igualitário como a Suécia, pode o transformar de muitas maneiras. A menos que os defensores do multiculturalismo forcem o cara a viver na bolha em que ele foi criado, formando sociedades paralelas no seio da sociedade, pois "todas as culturas são iguais". 

Por fim, o assunto "imigração" é complexo e cheio de nuances. Procurei abordá-lo da forma mais honesta possível, ouvindo e mostrando os dois lados.

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Sou a favor da imigração, mas há muitas questões sobre ela. Questões essas que merecem ser debatidas, sem adjetivações a priori. Xingar as pessoas de racista, xenófobo, coxinha, intolerante etc, sem discutir os problemas da vida real das pessoas de carne e osso, só ajudam no crescimento da extrema direita. Aprender a dialogar é fundamental nesse quesito.

E vocês, o que pensam sobre isso?

Amor e Paz

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