segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A manifestação da Ordem Rosacruz AMORC sobre o casamento homoafetivo

Na revista "Fórum Rosacruz - vol. VI - 2014", há uma manifestação da Ordem Rosacruz AMORC sobre o casamento homoafetivo que julgo importante analisar no âmbito deste blog, uma vez que ele se propõe a discutir as ideias que instituições e pessoas falam sobre os LGBTs. 

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A resposta sobre o casamento homoafetivo se dá dentro da seguinte pergunta: 

Sou homossexual e senti que, contrariamente a outros movimentos que frequentei, não sofro qualquer discriminação na AMORC e sou bem recebido no meu Organismo Afiliado. Mas gostaria de saber se a orientação sexual interfere no desenvolvimento místico, uma vez que li alguns livros que afirmam isso.

O texto segue com uma explicação da organização dizendo que a sexualidade não interfere em nada de místico e que a sexualidade humana é diversa. Na última parte da explicação, no entanto, tem algo que salta aos olhos:

Para encerrar, aproveitamos o ensejo para responder uma dúvida ligada a este assunto (ainda que tangencialmente) muito frequente. Por vezes a Ordem é questionada do porquê não ter uma cerimônia de casamento para casais homoafetivos, já que não discrimina ninguém. E a resposta é que a atual Cerimônia Rosacruz de Casamento foi configurada (nas palavras e no rito) visando a união de um homem e uma mulher). Quaisquer mudanças ou adaptações deverão vir apenas da Suprema Grande Loja e são da alçada do Imperator. Pode ser que venham ou não, mas nossa Ordem conta com pessoas de todas as raças, crenças, posições sociais e mesmo PREFERÊNCIAS SEXUAIS estudando em pé de igualdade, sem que essas condições importem ou sequer sejam levantadas, pois, repetimos, a única coisa que importa na AMORC é o comprometimento do indivíduo em conhecer a si próprio e colocar esse conhecimento, essa sabedoria, a serviço dos demais. J.

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A Ordem Rosacruz AMORC tem o mérito de ter pessoas voltadas para a espiritualidade e, por conseguinte, à paz. Isso faz com que os textos dela tenham um tom extremamente pacífico, amável, tolerante e atrativo. Esse tom amável na superfície faz com que muita gente ache tudo aceitável e até mesmo cool e não problematize certas posturas. No entanto, há de se ter um pensamento crítico com relação a instituição e sem cair na ingenuidade de que as coisas são neutras. 

A Ordem Rosacruz AMORC se afirma apolítica. No entanto, creio que ela é bem política e mostro por que. Nessa resposta, há mais sob a superfície do que podemos perceber. Nesse sentido, a própria organização sempre nos insta a fazer perguntas e os membros se definem como pontos de interrogação ambulantes. E é com base nesta ideia que apresento as questões abaixo.

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Esta resposta sobre o casamento homoafetivo, a meu ver, é um desrespeito à inteligência das pessoas. Isso porque, em NENHUM MOMENTO ela explica O PORQUÊ de o Imperator não fazer uma simples alteração de termo para que os casais homoafetivos possam ser integrados ao Ritual de Matrimônio. Simplesmente diz que é assim e ponto. 

Que a Ordem Rosacruz AMORC não realiza tal cerimônia porque o rito foi feito pensando os heterossexuais, isso já está claro. Mas ela não explica porque as pessoas responsáveis por isso não fazem uma pequena alteração. 

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No livro "O Manual Rosacruz", na parte final, onde consta o glossário de termos rosacruzes, a definição de Ritual de Matrimônio não faz referência a um homem e uma mulher. Ele diz que o casamento representa a união entre duas personalidades (ou duas personalidades-alma em algumas traduções). Ora, a definição do termo diz uma coisa e o ritual diz outra. Há, portanto, uma evidente contradição. 

Dizer que o Ritual de Casamento Rosacruz foi configurado nas palavras e no rito visando a união de um homem e uma mulher não é um argumento que justifique a impossibilidade de mudanças. Isso porque, quem conhece a história da organização, sabe que muita coisa muda com o tempo. Antigamente, ex-mestres de Loja usavam avental azul, hoje não usam mais. Na Antiguidade, Columbas deveriam ser virgens. Hoje não é feita essa exigência. Igualmente na AMORC havia três sons vocálicos que foram retirados dos ensinamentos atuais. Ora, por que algumas coisas podem mudar e outras não?

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O texto segue dizendo que "quaisquer mudanças são da alçada do Imperator". Essa parte específica chama muita atenção. Isso porque no mundo atual várias igrejas, lideres religiosos estão discutindo o casamento homoafetivo, seja negativamente ou positivamente. Várias igrejas nos EUA e na Europa discutem e problematizam a questão e algumas até o vem introduzindo em seus ritos. Enquanto isso, na AMORC, uma instituição que se pretende dar uma resposta para a "evolução espiritual do mundo", um indivíduo auto-intitulado IMPERADOR em latim, DECIDE que casais homoafetivos não têm o direito de passar por um Ritual de Matrimônio. Isso de forma totalmente unilateral, sem debates, sem trocas e sem apresentar possibilidades ou espaços de diálogo. Ele simplesmente DECIDIU e qualquer mudança cabe SOMENTE a ele.

Essa questão me levou a profundos questionamentos. Comecei a me questionar sobre o que eu estava fazendo ali. Enquanto todas as religiões e filosofias são abertas e discutidas em um debate público de ideias, os ensinamentos da AMORC permanecem privados a membros. Isso é por um lado, mas por outro eu me pergunto, até que ponto o rosacrucianismo sobreviveu até hoje por justamente não passar por este debate público de pensamento tal qual o islamismo, o cristianismo, o judaísmo entre outros?  

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A AMORC diz que as religiões  são dogmáticas e que ela apenas orienta as pessoas. Mas tal postura não seria um dogmatismo? Até que ponto as religiões, que contam com muito mais membros e espaço de pensamento, é que são tão dogmáticas assim? Na Igreja Católica há um Concílio que discute coisas e decide. Em algumas igrejas protestantes, toda a comunidade é chamada a decidir as coisas. No hinduísmo, nem sequer há hierarquia ou instituição. Na Ordem Rosacruz AMORC, "adogmática e aberta", um cara chamado Imperator decidiu que os casais homoafetivos não têm acesso ao Ritual de Matrimônio e ponto. Oi?

Na sequencia, o texto segue dizendo que tais mudanças "pode ser que venham ou não". Ou seja, não deu nenhuma esperança de mudança. A meu ver, essa foi uma tentativa de agradar a gregos e troianos, alimentando a ideologia antihumanista e exclusivista dos membros homofóbicos  e ao mesmo tempo fazer com que os membros homoafetivos permaneçam na instituição, dando seu dinheiro e enchendo as fileiras. Este trecho  foi a coisa mais acintosa que já li em toda a minha vida. Uma típica retórica que alimenta as pessoas com falsas ilusões, sem tomar posições. Será mesmo que a AMORC é apolítica? Acho que a resposta é mais do que evidente. 

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Este "pode ser que venham ou não" é mais profundo do que as pessoas conseguem supor. Se não vier uma alteração que permita os casais homoafetivos passar pelo Ritual de Matrimônio, não virá por algum motivo. Que motivo é esse? Não é um direito das pessoas saberem?

O fim do texto apresenta uma "pérola" em particular. Nele encontramos "Pode ser que venham ou não, mas nossa Ordem conta com pessoas de todas as raças, crenças, posições sociais e mesmo PREFERÊNCIAS SEXUAIS estudando em pé de igualdade, sem que essas condições importem ou sequer sejam levantadas"

Nem vou discutir o fato de quem escreveu o texto ter trocado o termo orientação sexual por uma questão de "preferência sexual" (talvez porque o tenha feito porque toma os outros com base em si mesmo). Foi um erro grotesco, mas isso daí é o de menos. O que importa é o cerne da mensagem. O texto diz que todas as pessoas podem estudar em pé de igualdade. Ora, os heterossexuais podem se casar, os homossexuais não, mas todos estão em "pé de igualdade"? Oi? Onde?

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A título de exemplo, imagine o leitor uma organização que tenha ritual apenas para pessoas brancas pois o branco representa a elevação espiritual e assim o é porque foi configurado em seu rito e seu texto o e qualquer alteração deve vir do Imperator. Mas que mesmo assim, a AMORC aceita pessoas negras estudando em pé de igualdade com brancos. Agora troque as palavras negro e branco para homo e heterossexual. Você ACHA ISSO NORMAL OU ACEITÁVEL?

É muito fácil falar que todos estão em "pé de igualdade" quando não são aquelas pessoas brancas, heterossexuais, cisgêneros de classe média, gente "normal" que são as discriminadas por uma razão que não é explicada.

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A primeira vez que abordei o assunto com a organização, eles me disseram que casais homoafetivos não podiam se casar, eles responderam que o ritual de casamento era para simbolizar a "união natural entre um homem e uma mulher". Agora, pelo visto, já mudaram o discurso e falam "E a resposta é que a atual Cerimônia Rosacruz de Casamento foi configurada (nas palavras e no rito) visando a união de um homem e uma mulher). Quaisquer mudanças ou adaptações deverão vir apenas da Suprema Grande Loja e são da alçada do Imperator". 

Ou seja, mudaram o tom mas a essência da coisa é a mesma. O fato é que não há problema nenhum que no pensamento rosacruz, apenas os heterossexuais tenham o direito de passar pelo Ritual de Matrimônio. Mas se for isso, acho que as regras do jogo têm que estar claras, até para que as pessoas possam saber se elas querem se dedicar a essa linha de pensamento ou não.

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Este texto que a Ordem Rosacruz AMORC expôs no Manual Rosacruz nos auxilia na compreensão do fato de que uma fala macia e um tom afável não são necessariamente "espiritualidade". Às vezes são apenas um artifício retórico para esconder uma discriminação com base numa ideologia que pressupõe que "leis cósmicas" legitimam o casamento heterossexual e não dá nenhum espaço, significado ou possibilidade para os casamentos homoafetivos. E tudo isso escondido no manto do "amor à humanidade, ao próximo e ao serviço aos demais". 

Eu considero essa resposta vaga e tergiversatória um profundo desrespeito aos membros que dela fazem parte. Claro que minha vida ou minha felicidade não dependem de uma cerimônia da casamento rosacruz. Contudo, a minha fé está vinculada a isso sim, principalmente em se tratando de uma organização que afirma ser inspirada por "Mestres Cósmicos" que velam pela evolução da humanidade.

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Ora, então a impossibilidade de os casais homoafetivos de passarem pelo Ritual de Matrimônio é inspirada por estes "Mestres Cósmicos"? Cabe aos membros homoafetivos ignorarem essa questão e buscar uma evolução espiritual? O que é evolução espiritual? É você ser ativo em relação às ideias que desumanizam os casais homoafetivos ou é você simplesmente ignorar essa questão e emitir pensamentos de amor à humanidade e se preocupar com o planeta?

Há membros que acham o máximo a Ordem Rosacruz AMORC tolerar a sexualidade deles e nada falar sobre isso. No entanto, tolerar o indivíduo e a sexualidade do indivíduo mas ignorar a família deste indivíduo e criar uma diferenciação social entre homos e heterossexuais com base em ideias não muito claras, não me parece ser uma atitude nobre ou correta de uma instituição que se propõe a auxiliar a humanidade na sua "evolução" (se é que evolução espiritual existe!).

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A AMORC fala o tempo todo em "expansão da Ordem", em "ampliação do número de membros". Acho que seria mais interessante respeitar as pessoas que já são membros com respostas precisas, do que ficar tentando chamar pessoas novas.

Ou eu estou errado, ou há algo profundamente errado nesse fato de a Ordem Rosacruz AMORC não permitir que os casais homoafetivos tenham direito ao seu Ritual de Casamento. 

Reforço ao leitor que este texto não é um "ataque" à organização. Antes, ele é uma humilde proposta de diálogo onde exponho as questões que me afligem esperando ouvir a opinião de outras pessoas. Se eu estiver errado, por favor, me sinalizem. Mas o fato é que eu achei essa resposta um desrespeito à dignidade das pessoas. Será que os caras que escreveram isso, realmente acharam que a alma de alguns membros iria pacificar com uma resposta tão tergiversatória? 

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Acho que o Imperator realmente deveria se manifestar sobre a questão. E jogar limpo e sincero, respeitando as pessoas e expondo abertamente a posição da Ordem Rosacruz AMORC sobre o Ritual de Casamento para casais homoafetivos. Se a Ordem acha que os casais homoafetivos não são uma "lei natural" ou são cosmicamente "foras-da-lei", ou se acha que o Ritual de Matrimônio é uma união entre duas almas, que isso fique claro. Mas que pelo menos essa hipocrisia feita para ganhar membros e dinheiro, acabe.

O que vocês pensam sobre isso? Será que eu estou errado? Será que devemos tomar como natural essa discriminação e ir "tocando a vida" em prol de uma suposta evolução espiritual? Por favor, nos sinalizem!

Amor e Paz

Obs.: Enquanto escrevia este texto, vi uma reportagem de que num zoológico da Alemanha, pinguins gays "celebram" 10 anos de união. Eles chegaram até a cuidar de um ovo abandonado por uma fêmea e do posterior filhote. Enquanto isso, no "reino humano", a gente ainda tá discutindo essas questões!


http://ladobi.uol.com.br/2016/11/pinguins-gays/

5 comentários:

  1. Quando li essa resposta dada no Fórum Rosacruz tive a mesma sensação: de que tergiversaram, para não propor mudanças. Já pensou em enviar um e-mail para o Imperator expondo isso e essa resposta que a GLP deu nesse sentido? Fico bastante curioso para saber o posicionamento do Templo Supremo.

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    1. Caro leitor Gustavo, já pensamos em várias coisas, mas enviar uma pergunta para o Imperator requer uma tradução de uma argumentação muito complexa para o francês, coisa que exigiria tempo e recursos. Achamos que não vale a pena porque provavelmente o Imperator dará outra tergiversação para mascarar o óbvio - que o rosacrucianismo, a despeito de toda sua "evolução espiritual", é um humanismo de retórica. Falam que são inspirados por "Mestres Cósmicos", mas seriam esses "mestres" os responsáveis por achar que apenas os heterossexuais têm o direito ao Ritual de Matrimônio? Há muitas questões não respondidas...

      Caso algum dia você queira ter essa iniciativa, por favor nos envie a resposta!

      Amor e Paz

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  2. Recebido o convite a participar da ordem, mas decidi pesquisar sobre sua visão da homossexualidade antes de aceitar ou recusar. Pelo que me parece, melhor continuar meus estudos por onde estou. Paz e luz.

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  3. Lucius Lorius, antes de refugar o convite permita-se adentrar a um mundo de auto conhecimento sem interferência nas suas opções seja elas quais forem, o estudo R+C lhe trará muita satisfação, evidentemente que devemos em tudo na vida aceitar a nossa verdade, devemos separar o que nosso coração e entendimento nos "fala" como aceitável ou não, nos estudos cabe a você decidir realmente o que irá fazer parte do seu acervo intelectual. Ser estudante R+C lhe proporcionará uma visão muito agradável, embasada em estudos, experimentos, em vivência... boa sorte!

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  4. É sério que vocês querem pressionar a AMORC (e daqui a pouco a Maçonaria) a aceitar o casamento gay?
    Então tá, né?...

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