quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A necessidade de se quebrar tabus

As sociedades de antigamente eram inegavelmente imersas em tabu. Em se tratando de Brasil, o catolicismo do cidadão médio via com vergonha quase tudo. Inclusive, o primeiro beijo heterossexual de língua na televisão causou mais furor do que o beijo gay, segundo me contaram pessoas que viveram aquela época. 

Era um período em que tudo era tabu: não ser católico, frequentar a macumba, prazer feminino, sexo oral, anal, homossexualidade, bissexualidade, mulher solteira, masturbação, usar certos tipos de roupas... Era uma vida muito regrada e isso não se refere exclusivamente ao Brasil. As sociedades ocidentais de maneira geral eram pautadas pela tradição e reprodução do comportamento.

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Foi no século XX que vimos as grandes revoluções do comportamento. O rock´n´roll, a minissaia, as mídias, os hippies e também um movimento intelectual de desconstrução e revisão das normas, a desnaturalização de coisas que sempre foram tidas como naturais criaram um caldo cultural de respeito às diferenças individuais e de debate aberto sobre vários temas. 

No que se refere aos LGBT, infeliz ou felizmente, o vírus HIV foi um dos nossos amigos. Foi a partir dele que os assuntos relacionados a nós foram tirados definitivamente do armário e a sociedade foi obrigada a discutir todo tido de assunto. Governos foram obrigados a emitir documentos públicos esclarecendo como fazer sexo e se sexo oral e anal eram seguros. Foi um movimento de tomada de consciência bastante particular. Tabus milenares precisaram ser discutidos em público. 

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Nesse sentido, percebeu-se que fazer das coisas um tabu e não falar sobre o assunto é um dos principais mecanismos pelos quais a ignorância se reproduz. O mundo de hoje, certamente, é muito mais livre do que já o foi.

Há, no entanto, que se discutir os limites pra isso. Cada vez que entro na internet, vejo notícias estranhas. É grupo de teatro que faz uma rodinha para um analisar o ânus dos outros; é grupo de feministas que regam plantas com sangue menstrual; mulheres ficam de seios desnudos em manifestações, é gente obesa que se fotografa nua para quebrar tabus, é gente que come fezes e fala normalmente sobre isso. É até artista fotografando vômito e catarro para quebrar tabus sobre o corpo. Há até uma famosa página em rede social cujo título é justamente "Quebrando o tabu".

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Há várias considerações sobre este tema. A primeira delas é que esse movimento de quebra de tabus parece ter sido um movimento de libertação maravilhoso que as pessoas construíram. Antigamente, a moral pública era mais importante do que a liberdade do indivíduo.

A segunda delas é que do ponto de vista artístico, não há problema nenhum de se quebrar tabus, uma vez que a arte vive disso mesmo - da transgressão, da quebra da norma, da reinvenção. E talvez o nosso incômodo hoje com certas coisas era o mesmo incômodo que pessoas no passado sentiam quando falavam de prazer feminino e hoje isso é "normal".

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A terceira consideração que podemos falar sobre isso, no entanto, é uma ponderação a todo esse raciocínio: há limites para se "quebrar tabus"? Pedofilia e incesto devem ser tabus quebrados também?
Até que ponto devemos acabar com todos os tabus de nossa sociedade e mandar a moral pública para as cucuias? Será que absolutamente TUDO tem que ser aceito e exposto publicamente? TUDO tem que ser naturalizado, sob a pena de se estar reproduzindo um tabu? São coisas que me pergunto atualmente.

O mais contraditório nisso é que ao mesmo tempo em que o mundo caminha nesse movimento de quebrar tabus, mas no Brasil, vemos um movimento de construção destes tabus numa outra dimensão. Na televisão nos anos 90, víamos cenas que hoje não vemos mais, como crianças em comerciais, mulheres seminuas na banheira do Gugu etc. Parece que os tabus foram redirecionados, embora poucos tenham percebido isso.

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Apesar de me perguntar qual o limite para o tabu, isso não significa em momento algum que não devemos dialogar sobre absolutamente tudo. Muito pelo contrário. Quebrar tabu significa manter sempre a mente disposta ao diálogo e não se chocar com nada. O que é bem diferente de naturalizar absolutamente tudo de exótico que o espírito humano é capaz de produzir.

E vocês, o que têm a dizer sobre isso?

Amor e Paz


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