sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O afeminamento como ritual de iniciação pra homos e heterossexuais

Na tradição mística ocidental, o conceito de iniciação é onipresente. Ele existe na maçonaria, no rosacrucianismo e em várias outras correntes. No entanto, a iniciação não é propriedade de nenhuma organização ou escola. A meu ver, ela é uma Lei da Vida, que ocorre independentemente da senda intelectual ou filosófica que cada um pode tomar. Ela acontece naturalmente na trajetória de vida de todos nós, sendo que a frequencia a uma instituição apenas ajudar a gente a ler os acontecimentos e interpretá-los de uma forma muito particular. 

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Mas o que seria uma iniciação? A meu ver, ela é um processo interior de tomada de consciência. É quando a nossa mente desperta para uma nova ideia, um novo processo, uma nova interpretação de nossa vida e um novo significado de existência. Há de se dizer, no entanto, que boa parte das iniciações são imensamente dolorosas, mas o que nos aguarda no final é quase sempre júbilo e resiliência positiva. A iniciação é, sem dúvida, um processo de expansão mental para um novo patarmar existencial.

Muitas tribos primitvas tinham rituais de iniciação que marcavam a passagem da infância para a vida adulta. O casamento também era um ritual de iniciação. Entre os antigos, estes rituais sociais de iniciação conviviam com os ensinamentos das Escolas de Mistérios, onde cada cerimônia dava ao postulante um conjunto de ensinamentos e ideias que o levava a um novo patamar mental. 

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Atualmente, nossas sociedades não possuem rituais de iniciação coletivos tão bem marcados como o tinham os antigos (embora o casamento ainda exerça esse papel). Isso, no entanto, não quer dizer que no interior de cada um, pequenas iniciações não continuem a exercer seu papel. 

Os LGBTs, em geral, tem muitos rituais de iniciação que já abordei ao longo deste blog. No entanto, hoje gostaria de abordar mais especificamente um ritual de iniciação que se refere exclusivamente ao universo gay. Trata-se do iniciação de afeminamento

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Não, não estou dizendo que todo gay tem que ser afeminado. Estou dizendo apenas que existe um ritual de iniciação gay que se refere exclusivamente ao modo como lidamos com o Feminino

É bem verdade que muitos gays já nascem afeminados e "libertados". Mas há outros que nascem sob o peso de machismo, da heteronormatividade e dos preconceitos misógenos da nossa sociedade. Estes gays, muitas vezes "discretos" ao extremo. lidam com sua alteridade em volto ao maior segredo e quase nunca conseguem levar uma vida "normal". 

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Estes gays, no entanto, conforme vão amadurecendo, já não têm tantos tabus com relação à própria sexualidade. Eles não acham que estão "errados" e transam sem culpa. No entanto, muitos deles ainda odeiam "bichinha", olham para seus pares afeminados como algo diferente e se vigiam o tempo todo para não requebrar. Esse tipo de mentalidade beira muitas vezes à histeria. A vigília do afeminamento sobre si e sobre os outros é constante. É aquele cara que se incomoda quando, num ambiente cheio de gays, eles se tratam no feminino.

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Há, no entanto, um processo de iniciação muito particular que se refere exclusivamente a estes gays, que é quando eles passam a lidar bem com sua feminilidade e, por conseguinte, com a feminilidade dos outros. É quando aquela face séria, vigilante e restritiva, dá lugar a uma pessoa alegre, desconstraída, divertida, que aprendeu a dar pinta e a requebrar. Ainda que não se faça isso o tempo todo, se permite brincar nos espaços de convivência; se permite chamar os outros de mona, bee e amiga. Olham para as travestis como primas e desenvolvem uma relação particular com o feminino.

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Muitos podem se perguntar se todos os gays devem participar deste processo particular de iniciação. Esta pergunta admite uma dupla resposta. A primeira delas é não, pois eu não estou em posição de dizer como cada um deve levar a sua vida. A segunda resposta é sim, pois eu creio que todo gay (gay aqui não é o homem que faz sexo com outro homem, mas um homem que faz sexo e se relaciona afetivamente com homens e se enxerga diferente dos outros homens) possui uma relação bem particular com o universo feminino. E é justamente quando nossa mente objetiva se permite dialogar com estes impulsos de feminilidade que provém de nosso interior, que se estabelece um vínculo muito interessante e nos dá uma libertação e uma inspiração únicas. Só quem já passou por isso consegue explicar.

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A iniciação para o afeminamento não significa que deixamos de ser homens ou que vamos andar desmunhecando o tempo todo. Mas este processo, a meu ver, implica numa fusão entre o masculino e o feminino que existe mais acentuadamente em nós, gays, e torna a nossa mente mais leve, mais sensível, menos estereotipicamente masculina. É quando deixamos de ser um "homem-personagem" e quando nos tornamos "homem-essência".

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Também é inegável que muitos heterossexuais podem passar por este ritual. É quando eles deixam de vigiar a si mesmos o tempo todo para não parecer gay perante a sociedade e se tornam apenas eles mesmos. Esse ritual de vigilância sobre a masculinidade atinge tanto gays quanto heteros! E muitos percebem no decorrer deste processo que muitos dos trejeitos que socialmente são considerados femininos, nem sequer são exclusivos ao universo da mulher. É quando estes homens heterossexuais percebem que o que se entende por "homem" socialmente falando nada mais é do que um personagem quase teatral que "pode fazer isso, mas não aquilo".

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É bem provável que muitos gays (e heteros também) nunca precisem passar por este processo para ser uma pessoa inteira. Mas, na minha experiência de vida, quando os gays tomam uma consciência sobre sua pinta interior e lidam bem com isso, eles passam a ser mais livres e felizes. Como diz um amigo meu, "ser macho não condiz com ter amor ao próximo". E nós só podemos amar ao próximo quando amamos a nós mesmos.

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E vocês, já passaram por este ritual de iniciação? Já deixaram de ser cabreiros com possíveis trejeitos que, nos impulsos espontâneos do instinto, se manifestam à luz do dia? O que pensam sobre isso?

Seja qual for a sua opinião, nada é mais ridículo, a meu ver, do que aqueles caras que procuram não-afeminados, discretos e fora do meio. Essas pessoas me dão um sono descomunal.

Amor e Paz

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