sábado, 26 de novembro de 2016

O papel biológico e psicológico das práticas homossexuais na vida dos heterossexuais.

Particularmente não gosto de falar muito sobre sexualidade em si, pois este blog busca abordar a vida interior dos LGBTs e os conceitos metafísicos a eles associados, quebrando um pouco aquela mania de achar que tudo o que se refere às minorias sexuais, tem que necessariamente ter sexo envolvido.

No entanto, gostaria de abrir uma exceção nesse pensamento e abordar exclusivamente o sexo neste texto, mais particularmente a homossexualidade e sua função na natureza.

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As pessoas dizem amiúde que o sexo é para a reprodução. Esta ideia-chave se repete amiúde em várias correntes de pensamento. Tal pensamento de sexo sexo foi criado para a reprodução está alicerçado numa ideia muito mais profunda, que é a ideia de que "Deus" cria as coisas com determinada função. Assim, a boca seria para falar, as mãos para criar ferramentas, os pés para andar, o ânus para defecar e os órgãos genitais para se reproduzir.

A ideia de que "Deus cria as coisas" frequentemente implica numa teleologia, ou seja, as coisas possuem um propósito nelas mesmas. Assim, se Deus "criou" as coisas, logo quem cria, cria algo para alguma coisa, com algum objetivo. E nesse, sentido, cada órgão dos seres humanos teriam um objetivo. 

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A partir daí cria-se uma lógica binária em que se você usa o órgão corretamente, logo você está "correto". Se você usa um órgão fora de sua "função", você está "errado". Com base nessa lógica binária, cria-se toda uma narrativa de que o uso do ânus para o prazer seria errado ou contrário à natureza. 

Bem, tirando o fato de que nem todos os homossexuais gostam ou sentem prazer com penetração, anal, essa lógica apresenta alguns problemas. Assim, podemos nos perguntar "será realmente que as coisas têm uma função?"

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Num primeiro olhar, sim. O estômago tem a função de digerir o alimento, o fígado de secretar enzimas, o rim de filtrar, o coração de bombear o sangue, a boca tem a função de comer etc. Só que, até que ponto as funções das coisas se resumem a um único elemento? Naturalmente, a função da boca é primeiramente triturar os alimentos. Mas ela também serve para falar. Também serve para beijar, para enfeitar e, finalmente, para fazer sexo oral. Ora, será mesmo que as coisas têm apenas uma única função que admite essa lógica binária de "certo x errado"?

Portanto, para começo de conversa, podemos definir que, se é bem verdade que certas partes do corpo possuem uma função primária, não significa que elas não possam ter uma funções secundárias ou terciárias.

Seguindo essa linha de raciocínio, a de que as coisas possuem funções (NO PLURAL!) no mundo natural, quais seriam as "funções" das homossexualidades sob uma perspectiva biológica?

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Uma das primeiras "explicações" sobre a função social das homossexualidades é a de que ela serviria como equilíbrio populacional. Essa visão, a meu ver, é muito reducionista, pois ela implica necessariamente na ideia de que homossexuais não reproduzem e que heterossexuais necessariamente se reproduzem. Essa visão, ainda que indique tendências, não é necessariamente verdadeira. 

Mas mais do que um "equilíbrio populacional", eu acho que a função natural da homossexualidade é outra. É um equilíbrio no prazer e nesse sentido, a partir desse momento, deixamos de falar das pessoas 100 % homossexuais e passamos a falar da homossexualidade enquanto prática sexual.

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Hoje em dia, entendemos as pessoas por categorias de acordo com a orientação sexual. No entanto, tais categorizações não são "verdadeiras". Durante muito tempo da História da humanidade, a homossexualidade era muito mais praticada do que o é atualmente. Aliás, até nem muito tempo atrás, a palavra "viado", "gay" ou "bicha" não designava o homem que fazia sexo com outro homem, mas sim aquele que era penetrado. O homem que penetrava, não era visto como diferente, era um homem como qualquer outro. 

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Inclusive, há quem diga que a militância gay que surgiu na década de 80, obrigou muitos homens a se definir na identidade gay, o que afastou muitos homens heterossexuais que faziam sexo homossexual. Ou seja, antes da identidade gay, os homens heteros faziam muito mais sexo homossexual do que hoje em dia. A nossa cultura, que associou todo e qualquer contato sexual com outros homens com uma identidade, deixou os homens heteros que antigamente transavam com outros homens sem culpa, receosos de, ao fazerem isso, serem associados a uma identidade que eles efetivamente não tinham. Assim, aquele sexo homossexual que acontecia na surdina, deixou de existir e os homens heterossexuais passaram a procurar exclusivamente as mulheres.

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Mas a despeito de quão os conceitos sexuais moldam identidades, sensibilidades e comportamentos dos homens heterossexuais, o fato é que a qualidade sexual penetrativa destas pessoas, frequentemente é aberta à penetração em quem quer que seja. Não é à toa que a cultura popular legitimou o velho "comedor de viado". 

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Nas culturas árabes, em que os sexos são segregados, essa qualidade multipenetrante do homem heterossexual é frequentemente mais evidente. Como o acesso às mulheres é mais restrito, nessas sociedades, por pior que seja a homofobia, os homens transam entre si. Isso acontecia também no Brasil de antigamente e muito provavelmente acontecia na Grécia Antiga, em sociedades tribais africanas etc. É o velho "não tem tu, vai tu mesmo".

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A grande pergunta é como seriam a psique e a sexualidade dos homens predominantemente heterossexuais se não houvesse nenhum tabu sobre a homossexualidade? Bem, os estudos antropológicos em tribos primitivas, que nunca tiveram nenhum contato com o Cristianismo, mostra que a homossexualidade nestes lugares eram muito mais comuns. Em tribos da África, os homens trabalhadores sempre levavam travestis para se aliviarem sexualmente. Já li relatos de gays em tribos da Papua Nova Guiné dizendo que antes dos missionários cristãos chegarem, os homens transavam com eles. 

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O que eu quero dizer é que, ainda que pessoas 100 % heterossexuais existam, a sexualidade das pessoas heterossexuais sempre foi muito fluida, principalmente num mundo sem tantas restrições culturais sobre diferentes práticas sexuais.

E é justamente aí que parece residir a função da homossexualidade (e não das pessoas homossexuais). Na ausência de fêmeas, o contato com homens com uma natureza mais penetrável serve como um meio para se obter o prazer sexual. 

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Pensando biologicamente, as pessoas não transam apenas para se reproduzirem. Aliás, esse pensamento é ridículo sob várias formas. Se um casal tem três filhos, podemos pressupor que eles só transaram três vezes na vida? Além disso, se sexo é apenas para reprodução, por que os seres humanos não têm cio?

Sexo é prazer. É uma necessidade de descarga de energias; é relaxamento; é sentir-se vivo. E não há nada de errado nisso. Na natureza, porém, há várias situações que impedem que homens heterossexuais tenham acesso às fêmeas sempre que precisam "descarregar" essa energia. 

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Numa caçada, por exemplo, as fêmeas são mais frágeis e muitas vezes ficam num local específico, enquanto que os homens saem para caçar. Nesse mundo de homens que saem à caça, as fêmeas não estão presentes; logo, a presença de homens com uma qualidade penetrável, serve para os homens se aliviarem. O mesmo pode ocorrer na guerra. Aliás, não são incomuns os relatos de homossexualidade em batalhões das Forças Armadas. Igualmente nas prisões, o mais empedernido comedor de mulher, começa a transar com homens quando é submetido a este tipo de situação.

Outrossim, a mulher, que muitas vezes cuida das crianças no pós-parto, às vezes não está disponível sexualmente e os homens encontram seu alívio em outros homens.

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Hoje em dia, com a pílula anticoncepcional, as mulheres estão mais disponíveis sexualmente e essa função social da homossexualidade dos homens predominantemente heterossexuais não é mais tão visível. No entanto, ainda hoje ela existe, principalmente nos países em que os sexos são segregados. 

Claro que a vida não é apenas biológica. Do contrário, poderíamos reduzir e dizer que a função dos gays de existirem é dar prazer aos homens heterossexuais, o que, naturalmente, é uma ideia estapafúrdia. Nesse sentido, este texto não é para buscar uma "função" biológica para a existência dos LGBTs. Já falei sobre isso em vários outros textos. Antes, ele é um aprofundamento sobre o papel que a prática da homossexualidade exerce na vida de muitos heterossexuais. Neste caso, ela serve para descarregar energias, para ampliar parcerias sociais e também para explorar outros sentimentos, ainda que o desejo predominante destes heterossexuais seja a atração pelo sexo oposto. Também, quando um homem tem muitos filhos e não tem mais condições de criar outros, a homossexualidade seve para impedir novas crianças que sugariam parcos recursos de sobrevivência.  Há até aqueles casos em que a homossexualidade dos homens heterossexuais serve para humilhar prisioneiros ou inimigos, feminilizando-os.

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Todo LGBT sabe o quão é difícil classificar as pessoas apenas como homo ou heterossexuais. Até o Ministério da Saúde sabe que tal classificação não corresponde exatamente à realidade, uma vez que criou o conceito de HSH (homens que fazem sexo com homens) para formular suas políticas públicas. Aparentemente, as homossexualidades sempre foram muito presentes na vida das pessoas predominantemente heterossexuais por mais que atualmente, os tabus sociais impeçam que eles explore essa vertente da sua sexualidade da forma plena, como já fora um dia.

Na evolução dos conceitos e do entendimento sobre eles, creio que num futuro mais ou menos próximo, ficará cada vez mais claro que a presença do desejo e da prática homossexual, não faz necessariamente a pessoa "ser" homossexual. O que a gente entende por ser homossexual é algo que envolve sentimento, jeito e algo muito mais profundo. Para boa parte dos heterossexuais a homossexualidade é uma possibilidade, enquanto que para os LGBTs, a homossexualidade é uma condição.

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E assim, eu me pergunto: será que o rompimento desses contatos homossexuais naturais é um dos responsáveis pela homofobia de tantos homens heterossexuais? Será que é devido à repressão volitiva da homossexualidade natural que existe em tantos heterossexuais, que estes mesmos heteros falam tanto que a homossexualidade é uma "escolha"?

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E vocês, o que têm a dizer sobre isso? Seja como for, a homossexualidade não parece ser algo "oposto" à existência das pessoas predominantemente heterossexuais. Na realidade, ela me parece ser uma carta que pode ser jogada a qualquer momento no jogo da vida. E é justamente aí que reside certa tensão. Não me parece ser normal que tanta gente heterossexual lute contra a homossexualidade por ser um "pecado", mas não esteja nem aí para a gula, por exemplo, que na teologia católica é um pecado mortal. Para mim, há algo a mais nessa preocupação dos heterossexuais com a homossexualidade alheia. Algo de muito profundo ali. 

Amor e Paz

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