terça-feira, 15 de novembro de 2016

O pensamento esotérico e místico e a LGBTfobia

Certa vez eu conheci um menino e a gente tava conversando e talz, rolando um clima. Daí entramos no papo de religião e falei para ele que era estudante rosacruz. O rosto dele, de um sorriso bobo, ficou violentamente sério. Ele chegou a se afastar um pouco. Eu perguntei a ele o que tinha acontecido e ele me falou que a mãe dele era rosacruz e que o tinha expulsado de casa quando contou que era gay porque segundo ela, a rosacruz disse que isso é contra as leis naturais e as leis cósmicas. 

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Na hora eu fiquei sem saber o que responder. Felizmente o garoto saiu de casa, arrumou um trabalho e conseguiu sua independência financeira logo depois. Mas, como o encontro minguou, até hoje não sei se ele e a mãe se falam. 

Em outra situação eu fui viajar com um grupo de amigos rosacruzes que fiz na Loja em que eu frequentava. Durante a viagem, surgiu o papo "homossexualidade" e eu tive que ir até Cabo Frio com os membros falando porque a homossexualidade era antinatural porque feria as leis de Deus e as leis cósmicas.

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Essas foram só algumas das situações que eu vivi que gostaria de ilustrar para o leitor de como o pensamento esotérico e místico serve como base de uma filosofia LGBTfóbica que exclui as pessoas e as discrimina.

A culpa disso não é, de forma alguma, da "Ordem Rosacruz" ou de qualquer outra instituição. Afinal de contas, o mesmo rosacrucianismo em que eu me formei foi o mesmo em que estas pessoas se formaram. E eu levei o pensamento longe, coisa que o leitor pode ver neste blog. Já outros membros continuaram com uma mentalidade homofóbica. Ou seja, o que diferenciar uns e outros é mais ou menos a motivação pessoal.

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Do ponto de vista institucional, a Ordem Rosacruz AMORC não pode ser acusada, pelo menos na superfície, de nenhum tipo de discriminação. Ela, inclusive, já emitiu textos de respeitos às minorias sexuais. No entanto, há de se aprofundar um pouco mais nisso. 

As publicações da organização que lidam com o assunto giram em torno de duas matrizes mentais: 1- a do respeito/ tolerância às pessoas;  2- a das visões científicas sobre o assunto, que afirma que a sexualidade é muito diferente e cada indivíduo é único. Juntando as duas coisas, logo, a relação do rosacrucianismo com a diversidade sexual parece estar resolvida. No entanto, NÃO ESTÁ NÃO. Há certas questões que precisam ser abordadas. 

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O fato é que mesmo com essas posturas positivas em relação à diversidade afetivossexual, o pensamento místico que a AMORC ensina é a base para as posturas LGBTfóbicas de seus membros (embora isso seja refreado por uma certa cultura de "tolerância" e "respeito"). Isso, no entanto, não é exclusivo da AMORC. Outras organizações místicas - rosacruzes ou não - são até piores. 

Ressalto que não intenção deste texto e nem deste blog dizer como a Ordem Rosacruz deveria ser ou deixar de ser. Não tenho tal pretensão e nem tal capacidade intelectual ou autoridade para tal. O que quero fazer aqui é discutir as coisas exclusivamente no âmbito das ideias. São apenas as ideias que me interessam problematizar e mais nada. 

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Em um texto rosacruz, que aborda os ensinamentos pitagóricos, está escrito que os números, para Pitágoras, são a representação da essência das coisas, ou seja, o que constitui a sua natureza. E que Pitágoras utilizava os números para simbolizar os dez princípios duplos nos quais se faz repousar tudo o que existe: a unidade e a multiplicidade, o limitado e o ilimitado, a direita e a esquerda, o macho e a fêmea, o repouso e o movimento, a luz e as trevas, o bem e o mal, o quadrado e o redondo, o par e o ímpar, a reta e a curva

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Esse é o exemplo de apenas um texto rosacruz. Mas ao longo dos estudos, há vários outros que evocam essa dualidade macho-fêmea. 

Assim, eu não acho que a "culpa" seja dos membros ou das instituições. Existe uma tradição de pensamento esotérica no mundo ocidental que, em maior ou em menor grau, é responsável por uma LGBTfobia filosófica, cultural e esotérica. E isso reverbera de muitas formas nas religiões. 

Se eu fosse heterossexual e lesse que o macho e a fêmea são dois princípios duplos de tudo o que existe, eu iria embarcar nessa tranquilamente. E ainda iria defender que o casamento heterossexual simboliza estes princípios e tudo o que foge a isso estaria errado. Na verdade é pedir muito para um heterossexual que lê isso, que consiga abstrair e levar o pensamento longe, incluindo também a diversidade LGBT.

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Na realidade, na minha condição LGBT, eu olho para o pensamento de pitágoras e vejo que ele inclui a diversidade humana no campo da afetividade e da sexualidade. Mas naturalmente para se chegar a esse nível de pensamento, é preciso levar a mente para longe. É preciso meditar, refletir e concluir que tais princípios são não "oposições", mas sim parte de um todo em movimento. 

Quando lemos esse pensamento de Pitágoras na superfície, viramos heteronormativos. Mas para aqueles com perspicácia de percepção, há algo a mais nessas ideias pitagóricas.

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Assim, toda essa mística ocidental, quando olhada na superfície, tem um discurso extremamente infenso à diversidade afetivossexual. Quando problematizamos as coisas e nos aprofundamos, a coisa muda de figura. No entanto, acho que isso é pedir demais para os heterossexuais que frequentam essa instituição. Eles estão confortavelmente colocados no centro do universo e jamais vão querer mudar isso em nome de uma profundidade de pensamento. 

E vocês, o que pensam sobre isso? Enxergam esse pensamento esotérico e místico como fonte de LGBTfobia? Ou os vê como fonte de compreensão?

Amor e Paz

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