terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Fim definitivo do blog - Carta de despedida

Este é o último texto do blog, infeliz ou felizmente. É verdade que já o encerrei anteriormente, mas dessa vez é definitivo.

Ao todo são sete anos que mantemos este blog e, pegando o total de visualizações divididos pelo número de meses, temos uma média de 3700 visualizações por mês, ou 120 acessos por dia, o que eu considero razoável, na medida em que esse blog trata de temas muito amplos.

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Este blog surgiu a partir de um impulso indescritível de escrever e de um influxo de ideias que não sei nem explicar como surgiu. Durante algum tempo tentei resistir, achando que tudo era besteira, mas havia uma força interior mais forte que eu e que me impulsionava a escrever e a colocar no papel todas as ideias que me vinham à mente. 

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Quando comecei, em 2010, não sabia exatamente aonde eu queria chegar e nem o que eu queria. Naquela época eu estava no auge dos estudos rosacruzes. estes estudos são muito prolíficos, amplos e dão ao membro uma capacidade incrível de dialogar com os conceitos metafísicos que são propostos por inúmeras religiões.

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No âmbito desses estudos, eu sentia falta da questão LGBT. Não que fosse obrigação da Ordem Rosacruz AMORC abordar essa questão; muito pelo contrário. No entanto, dentro do rosacrucianismo, eu sentia que, por debaixo da rasgada tolerância e da retórica humanista da instituição, havia um forte discurso heteronormativo e discriminatório que colocava homens e mulheres heterossexuais como sendo representantes legítimos de uma cosmovisão legislativa, onde a heterossexualidade era uma "lei cósmica". Até aí tudo bem, pois é um direito das pessoas darem significados para as relações heteroafetivas. Mas o que me incomodava era: se as relações heterossexuais são "leis da natureza", as relações homoafetivas são o quê? Elas não têm lugar no cósmico?

Assim, mediante esse silêncio, perguntei a mim mesmo: por que eu próprio não poderia preencher esse silêncio? Nesse sentido, eu dou graças a Deus que determinadas organizações não abordem a diversidade sexual, pois acho que quem tem que falar para ou sobre os LGBTs são eles próprios!

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Meu primeiro impulso foi escrever uma espiritualidade para LGBTs. Depois foi usar a espiritualidade para combater a LGBTfobia, desconstruindo os conceitos que religiões e instituições filosóficas construíam sobre nós. O objetivo era, portanto, romper com essa cortina de silêncio que eu percebia haver com relação à espiritualidade e a existência LGBT.

Se no âmbito das religiões há uma espiritualidade que é declaradamente inimiga das minorias sexuais, no âmbito do rosacrucianismo, a despeito da pluralidade de assuntos abordados, havia um grande silêncio obsequioso travestido de tolerância.

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Nesse ínterim, eu estava, no auge da faculdade de História, dialogando com diversos conceitos das ciências humanas, vendo que tudo era uma "construção social", sendo desconstruído em todos os aspectos e relativizando absolutamente tudo. Tornou-se um desafio seguir o mundo acadêmico e ao mesmo tempo seguir e produzir uma fé;

Assim, aqueles dois intentos iniciais - o de produzir uma espiritualidade para LGBTs e usar a espiritualidade para combater a LGBTfobia - minguaram com o tempo. No entanto, ainda me vinha um impulso indescritível para escrever e produzir alguma coisa. Mas afinal, o que eu queria produzir?

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Conforme foi passando o tempo, foi ficando claro novos objetivos: o de me apropriar dos conceitos no campo da espiritualidade e das ciências humanas e pensá-los sob a ótica LGBT, produzindo algo que fosse vivo e fértil para quem lesse.

Quando as pessoas buscam uma espiritualidade, geralmente querem uma palavra amiga, um conforto etc. Mas meu objetivo nunca foi esse. E nem nunca pretendi propor uma espiritualidade ou uma "verdade" a quem quer que fosse. Percebi que meu objetivo principal era pensar as ideias espirituais, suas consequencias e seus impactos com relação para os LGBTs. Em alguns casos, propus ideias novas, mas em outros, quis apenas discutir a questão com os leitores.

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Ficou claro que minha maior preocupação era o reino das ideias, pois é nele que reside a fonte de toda a homofobia. Também percebi que tanto a espiritualidade quanto as ciências humanas são "sistemas de pensamento" com conceitos e ideias. Cada uma das inúmeras escolas acadêmicas ou correntes religiosas e metafísicas são sistemas de pensamento que propõem em diferentes graus explicar o mundo, entender os fenômenos e dar horizontes de vida aos seres humanos.

Igualmente, tive que ter coragem de ousar o pensamento e me perguntar: por que não juntar as ciências (humanas, exatas e biomédicas) com os ensinamentos e conceitos da espiritualidade?

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Desde a criação deste blog até hoje muita coisa aconteceu. O casamento homoafetivo foi aprovado, inúmeros casos de LGBTfobia foram noticiados e a própria psicologia das pessoas LGBTs mudou bastante. O impeachment de Dilma representou a saída definitiva das esquerdas no cenário político e as consequencias disso ainda são nuviosas.

Hoje, falar numa espiritualidade LGBT está fora de moda, na medida em que as discussões se fragmentaram. Lésbicas foram para um lado, população trans para outro, população negra e pobre para outro lado e assim sucessivamente. Aquela noção de coletividade anda meio fragmentária. Mas não falo isso reclamando. Considero esse movimento absolutamente natural. O Cristianismo, a partir de uma única seita cristã, se subdividiu em várias correntes, algumas tão diferentes entre si que mal se reconhecem como pertencendo à mesma raiz. Isso é, aparentemente, muito natural.

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Embora este não seja um blog rosacruz, é inegável que o rosacrucianismo enquanto sistema de pensamento influenciou muito a construção de tudo isso. Todos os anos de formação na Ordem Rosacruz AMORC me possibilitaram ver o mundo dos conceitos religiosos, metafísicos e místicos de uma forma muito crítica, mas ao mesmo tempo crente. O rosacrucianismo me ensinou a olhar a espiritualidade tanto em primeira quanto em terceira pessoa.

Hoje, no entanto, ando flertando bastante com o ateísmo. Sai completamente da Ordem Rosacruz AMORC e perdi a minha espiritualidade. O fato de a Ordem Rosacruz não permitir que casais homoafetivos passem pelo Ritual de matrimônio mexeu bastante comigo. Isso porque a AMORC se afirma ser inspirada por Mestres Cósmicos, seres de elevada espiritualidade que velam pela evolução da humanidade. Ora, ainda que eu acredite nisso (não sei se acredito), seriam esses tais "mestres" os responsáveis por não se fazer nenhuma alteração no Ritual de Matrimônio que possa incluir os casais homoafetivos? Se sim, então todas as pessoas a favor do casamento homoafetivo estão contrárias à mestres que guiam a evolução da humanidade? Se não, então até que ponto a AMORC é inspirada por eles?

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Enquanto essa pergunta não estiver respondida, não tem como eu fazer da organização um "lar espiritual". Mas isso não significa que eu esteja certo. Há vários LGBTs que são estudantes rosacruzes e que não se importam com essa questão. Talvez eles estejam certos e eu errado. O tempo dirá. De qualquer forma, creio que cada vez mais LGBTs tomarão consciência de que não é aceitável qualquer instituição que se proponha espiritualista e humanista, não inclua os casais homoafetivos em seus ritos de matrimônio ou de casamento. É uma questão de tempo até isso estar claro na mente das pessoas.

Mas ainda que a AMORC resolva essa questão, já nem sei mais se a espiritualidade ecoa em mim tanto quanto já ecoou. Atualmente, a ciência me atrai muito mais e o ateísmo me parece bem mais real do que qualquer tipo de deuses, inteligências divinas, mestres, espíritos ou qualquer tipo de misticismo. Profissionalmente também estou imerso no mundo acadêmico e este é o fato pelo qual optei pela discrição com relação às identidades dos escritores destes textos, na medida em que espiritualidade, religião, misticismo e esoterismo não combinam exatamente com ciência.

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No entanto, ainda que eu esteja afastado da espiritualidade, conceitos aprendidos no rosacrucianismo e, em certa medida, no Cristianismo, como o serviço à humanidade, o amor ao próximo, a alegria do viver e os rituais cotidianos de harmonização mental, ainda ecoam em mim. A vontade de transformar o mundo ao meu redor, oferecer ideias e propostas para minorar o sofrimento das pessoas ainda é um horizonte que mantenho no mais profundo do meu coração.

Posso ter errado em muita coisa. Muito do que escrevi há alguns anos, já não concordo mais e teria feito diferente. No entanto, errar faz parte do exercício de pensar. Não apaguei quase nenhum texto antigo. Eles estão lá para quem quiser ler e corrigir as ideias. Antes de tudo, eles são lampejos intuitivos que estavam em um estado latente e que ainda precisariam ser polidos. Pedimos desculpas a quem quer que seja por erros de julgamento, apreciação ou conclusões equivocadas. Mas sempre admitimos que podíamos estar errados.

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Embora muito tenha sido feito no âmbito da vida dos LGBTs, a batalha ainda é árdua. O pensamento rosacruz afirma que toda evolução é precedida por um período de involução. Então talvez vejamos alguns retrocessos aqui e acolá no âmbito dos direitos civis e nos discursos religiosos. É importante que nunca achemos que "a batalha já está ganha". A perseguição à comunidade LGBT é sempre um fantasma que paira em qualquer Estado, religião ou organização.

Recentemente inaugurou-se no centro de Paris, uma Igreja Ortodoxa Russa, cujo patriarca comparou o casamento gay ao nazismo. Cada Igreja dessa aberta é um círculo de área de influência, que influencia as pessoas daquele local com suas ideias. Nós, LGBTs, não temos a capacidade de termos uma "área de influência". Nosso trabalho é de formiguinha. Ainda que o Estado por meio das escolas e de programas sociais possam fazer algo para minorar o sofrimento e a perseguição às minorias sociais, cada gay, cada lésbica, cada bissexual e cada transgênero sempre será um diplomata de si mesmo no âmbito do seu microcosmos.

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Ao longo desses sete anos, fiz alguns amigos, os quais agradeço imensamente pela companhia e presença física, virtual e espiritual. São amizades que espero levar para a vida.

Tenho imenso respeito pelo pensamento religioso e pelo papel que desempenhou e desempenha na humanidade. De qualquer forma, isso não significa que ele não deva ser questionado. Muito pelo contrário.

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Espero algum dia produzir um livro com todas as reflexões aqui expostas, de modo que possamos criar um legado espiritual referente aos LGBTs e queeste  possa enriquecer a mente das minorias sexuais, mas principalmente dos próprios heterossexuais.

Meu muito obrigado a todos os leitores, ainda que não sejam muitos. Sites de pornografia possuem mais de um milhão de acessos com apenas alguns meses de existência. Nosso humilde blog tem 300.000 acessos em 7 anos, mas eu considero um sucesso, na medida em que abordamos sistemas de pensamento tão amplos. É muito difícil dialogar com leitores utilizando ciências e espiritualidade ao mesmo tempo. 

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Nestes sete anos, um dos grandes desafios foi tratar o tema LGBT não vinculando-o à pornografia e ao sexo e também não se relacionando com uma militância política estridente. Buscamos a espiritualidade, o amor ao próximo e a inclusão, sempre propondo o diálogo, a troca e a discussão filosófica e conceitual. Se fomos bem sucedidos, só o leitor poderá dizer.

Mesmo nós não escrevendo mais neste blog, não hesitem em deixar seus comentários. A cada semana, eu verifico tudo o que escrevem aqui e as ideias, sugestões e críticas nos textos multiplicam-se e frutificam, mesmo que vocês não tenham consciência disso.

Meu muito obrigado a todos. Espero que um dia, este mapa abaixo dos países que permitem o casamento homoafetivo, fique todo vermelho.

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Por fim, deixo vocês com a profecia de uma xamã da tribo Cree no Canadá, quando da invasão dos brancos às terras indígenas. Será que essa profecia diz alguma coisa ao coração do leitor?

"Um dia a Terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos nas correntezas dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão seu espírito. Mas vão recuperá-lo para ensinar ao homem branco a reverência pela sagrada terra. Aí, então, todas as raças vão se unir sob o símbolo do arco-íris para terminar com a destruição. Este será o tempo dos guerreiros do arco-íris".

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Amor e Paz


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3 comentários:

  1. Amo esse blog, o acompanho desde 2010. Sempre lida os textos no mesmo dia em que eles eram postados, mas algo já me dizia que o fim estava próximo. Vocês não tem ideia do quanto conseguiam ampliar minha visão de mundo. Esses textos não podem ser apagados.

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  2. Gente, fiquei muito triste quando li essa notícia.
    Acompanho o blog desde 2014, as suas postagens são tão enriquecedoras, trazem temas tão relevantes para o debate em uma roda de amigos, em uma aula... Reflexões gostosas com um tom moderado.
    Enfim, obrigado, muito obrigado, por compartilhar o conhecimento.
    Não nos conhecemos, e talvez nunca iremos, mas qualquer coisa pode me contatar, estarei disposto (e me sentirei honrado) em ajudar no que for.
    Amor e paz para você também.

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  3. Anos atrás, fui à igreja Contemporânea mas não me adaptei à liturgia pois fui criada na igreja Batista (sou lésbica e fui excluída da membresia desta).
    Curiosamente, esta semana resolvi procurar mais a fundo sobre espiritualidade LGBT e parei aqui.
    Acredito que este blog mesmo tendo chegado ao fim acrescente na vida dos LGBT... Domingo arriscarei vistar a paróquia anglicana do Méier e enquanto isso darei uma boa lida aqui no blog.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte neste novo momento de sua vida. Obrigada!

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