sábado, 3 de dezembro de 2016

O conceito de "balança da Verdade" e as problemáticas acerca do verbo "ser"

Quando eu era criança, aprendi em geografia que há paisagens que são naturais e artificiais. Cresci um pouco e me ensinaram que os espanhóis eram conquistadores e os incas, conquistados. Depois me falaram que os vírus não eram seres-vivos.  Em biologia, me ensinaram que os seres humanos ou são homem ou são mulher.

Quando sai da escola, percebi que as pessoas eram homossexuais, heterossexuais, negras, brancas, suburbanas, ricas etc. Ouvi também que os alemães são frios e calorosos. Aprendi também que havia pessoas que eram ricas e pessoas que eram pobres.

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Todas essas sentenças lidam de uma forma muito naturalizada com o verbo ser. Este verbo é um dos mais básicos da linguagem humana. Quando estudamos qualquer língua estrangeira, a primeira coisa que aprendemos é a conjugar o verbo to be em inglês, être em francês,  ser em espanhol, sein em alemão, essere em latim etc. Este verbo parece ser universal (desconheço línguas nas quais ele não exista).

No entanto, com o tempo, fui desenvolvendo uma implicância especial com esse verbo e explico o porquê. Ousei o pensamento e passei a perguntar: será que essa verbo é "natural"? Será que é inexorável trabalharmos com ele?

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Sempre me dizem que "sou homem". Ou seja, por meio do verbo ser, colocam na minha cabeça a pecha de homem e condicionam toda a minha vida. Tudo bem. Eu gosto de ser homem; não tenho problemas com minha genitália e nem curto nada referente ao universo feminino. Mas já me vesti de mulher no Carnaval, gosto de dar pinta quando estou bêbado e de brincar com a feminilidade. Será que ou "menos homem"? Afinal, o que "é ser homem"?


É bem verdade que muita gente tem as mesmas indagações que eu. No entanto, as conclusões que essas pessoas tentam buscar, todas elas levam em consideração o verbo ser. Em outras palavras, elas vão buscar a resposta do que "é" ou "não é" ser homem. Eu gostaria, no entanto, de voltar um pouco o pensamento e questionar a própria existência do verbo ser.

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Assim, voltando aos exemplos iniciais de infância, os geógrafos estão corretos em dizer que há paisagens que "são" artificiais e naturais. No entanto, há de se ressaltar que todos os prédios de uma paisagem artificial são feitos com materiais oriundos do mundo natural. Ou seja, em "essência", eles também são naturais, embora tenham passado por um processo de manufatura que os transformou. O vidro de nossas janelas nada mais é do que areia processada. Mas, se assim o for, um enorme prédio, é natural ou é artificial? Chamá-lo de artificial, implica necessariamente que ele não tenha nada de natural?

A partir daí eu comecei a perceber como o verbo ser é enganoso e turva o pensamento. Analogamente, os incas, eram conquistadores terríveis, mas ao mesmo tempo, eram os conquistados na época dos espanhois. Ou seja, eles "eram" as duas coisas ao mesmo tempo e não uma coisa separada da outra!

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O verbo "ser" tem implicações até no nível das nossas relações pessoais. Quando conhecemos uma pessoa, logo dizemos que ela é simpática ou antipática. No entanto, será que alguém "é" simpático ou antipático o tempo todo? Será que antipatia ou simpatia definem a "essência" de alguém ou será que define uma potencialidade?

Percebi com o tempo que o verbo "ser" pode ser mentalmente transformado numa balança. Quando falamos que as coisas "são", quase sempre nos referimos a uma "essência" daquele objeto, quando, na verdade, o verbo "ser" se refere a uma preponderância dentro de uma situação na qual muitos elementos estão em jogo.

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Assim, as tais "paisagens artificiais" da geografia, "são" artificiais apenas preponderantemente, pois em essência, há muitos elementos naturais que ajudam a compor essa paisagem. Uma grande cidade pode ter um lindo parque natural, mas isso não lhes tira uma natureza predominantemente artificial. O exemplo abaixo ilustra perfeitamente esses elementos de preponderância que ajudam a compor o verbo "ser". A balança ilustra que, no caso de uma cidade, o aspecto artificial prepondera sobre o natural.




Sob essa perspectiva da balança, podemos ver sob novos olhares discussões infinitas no campo científico. Até hoje há uma discussão sobre se vírus são ou não seres-vivos. A resposta a isso depende de como os diferentes autores estão classificando as coisas, utilizando diferentes critérios. Ao invés de discutir o que o vírus "é", vê-los sob uma balança em que os elementos de não-vida preponderam sobre os elementos de vida, nos auxiliam a lançar um novo olhar sob a questão.




E finalmente, no campo da sexualidade, as pessoas são preponderantemente homens ou mulheres, hetero ou homossexuais. Ora, mas mesmo o mais empedernido dos machões, são "homens" preponderantemente em relação a um aspecto feminino de seu corpo ou de sua personalidade.




Ainda nos exemplos iniciais, os alemães são preponderantemente frios, mas será que também não contam com uma boa dose de amorosidade e de humor caloroso na Oktobeer Fest? Os brasileiros são alegres, mas será que não existe tantos brasileiros deprimidos e sofridos? Assim, embora um aspecto predomine, isso não significa que outros aspectos não estejam presentes na composição de um quadro complexo. O verbo ser, no entanto, apaga essa composição de forças e atribui às coisas uma única essência.

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Essa forma de olhar as coisas rompe com toda uma lógica binária que busca identificar as características de uma coisa para se definir o que não é uma coisa. Apesar de respeitar essa lógica, hoje eu vejo que o mundo real, o "ser" e o "não ser" possuem fronteiras que frequentemente não são rígidas. Se um elemento "é" uma coisa, é porque ele não possui certas características. Logo, ele "não é". No entanto, na vida real, essas características que o elemento x não possui, podem estar presentes ali de uma forma não preponderante, latente ou ainda podem existir de forma potencial.

Assim, uma paisagem é natural porque ela não possui as características de paisagens artificiais. No entanto, será que num parque nacional, não existe aquela casa construída pelo homem, que nada mais é do que a administração do parque? Logo, aquela paisagem é preponderantemente natural; mas não é 100 % natural. Elementos artificiais existem ali em menor grau, em estado potencial ou latente. Afinal, cada parque nacional sempre pode receber um empreendimento imobiliário.

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As implicações filosóficas de substituir o verbo "ser" enquanto uma essência para uma noção de que as coisas são predominantemente mas guardam elementos opostos de forma latente ou potencial são INÚMERAS. Cabe ao leitor imaginar. Verá que essa perspectiva mudará suas vidas.

Só a título de curiosidade, se um avião cai e apenas dois sobrevivem. É Deus quem "atuou"? Ao invés de discutir se "é" ou "não é" Deus, que tal pensarmos as coisas em termos de balança e colocar nessa livra, Deus, acaso, sorte e tecnologia?

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Assim, quando uma pessoa heterossexual possui alguns desejos homossexuais (reprimidos ou não), ela não "é" homossexual enrustida. Essa perspectiva é pobre, a meu ver. Ela continua sendo heterossexual, mas possui elementos homossexuais de forma menos preponderante.

As implicações filosóficas de ver as coisas em forma de balança são muitas.

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O pensamento dualista pode servir como parâmetro para a tomada de decisões no mundo real, mas num exercício de busca pela verdade, a busca pela ontologia das coisas, acho que o verbo ser atrapalha mais do que ajuda. Nesse sentido, a Verdade, se é que existe, me parece sempre ser uma balança, constituindo a balança da Verdade. Essa ideia nada mais é do que você ponderar o pensamento em diferentes direções, entendendo que o "ser" expressa necessariamente em uma preponderância de algum elemento, mas isso não significa dizer que outros elementos não estejam ali presentes.

Cabe uma meditação profunda sobre esse conceito.

E vocês, o que pensam sobre isso?

Amor e Paz

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