sábado, 3 de dezembro de 2016

O homem pré-histórico e os homossexuais

"Eu gosto dos gays porque sobra mais mulher pra gente" - Um hetero qualquer

Atualmente estou lendo o livro "Sapiens" de Yuval Harari que conta a história do gênero homo e da espécie sapiens; em outras palavras, conta a história do homo sapiens. Ou seja, nós.

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Particularmente os estudos do homem pré-histórico sempre me incomodaram de uma maneira que não sei explicar. Perceber que nós somos apenas a espécie que sobreviveu entre várias outras, me incomoda. Incomoda-me demais conciliar a ideia de Deus, alma, família, reencarnação e outras ideias metafísicas com o estudo de como os homens criaram ideias abstratas para organizar seu mundo, com a ideia de que os laços sociais formados são apenas elementos que o bando de animais criou para garantir a sobrevivência e com a ideia de que antes de nós vieram milhares de seres-humanos. Estudar a pré-história e ter fé, é algo muito difícil.

A pré-história não destroi apenas as nossas crenças metafísicas. Ela também nos força a rever laços sociais e parentais de uma forma muito perigosa, de modo que sempre corremos o risco de atingir um ponto de não-retorno em nosso pensamento.

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O livro "Sapiens" é gigante e ainda o estou lendo. De qualquer forma, não tem como deixar de pensar nos homossexuais quando entramos numa leitura antropológica do homem (no caso, a antropologia humana e não a cultural) e o tema merece algumas considerações.

Por que a natureza criou pessoas que se atraem predominantemente pelo mesmo sexo e são potencialmente não-reprodutores?

A velha tese de que os homossexuais existem para conter o excesso populacional é um lugar-comum e pode ser verdadeira, em algum grau. Em outro texto falei que práticas homossexuais dos homens heterossexuais também pode ter o valor de escoamento da energia sexual no caso de escassez ou menos acesso às fêmeas.

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Hoje pretendo adicionar algo a mais nessa reflexão e ver que a homossexualidade, do ponto de vista da antropologia humana, pode ter uma função a mais.

Quase todo mundo já ouviu algum homem heterossexual dizendo "eu gosto dos gays porque sobra mais mulher pra gente". Antes eu considerava isso uma brincadeira, mas hoje eu considero que há uma profunda verdade nesse pensamento.

Quando há alguma quantidade de machos homossexuais em um bando, isso diminui a disputa por fêmeas, o que torna o mundo masculino menos competitivo. Isso tem uma função biológica importante. Além de trazer - em tese - menos brigas, uma vez que há mais mulheres disponíveis, permite que homens heterossexuais tenham mais de uma parceira, ampliando sua prole, sua descendência e aumentando pool genético da sociedade.  Aliás, se essa tese estiver certa, isso só mostra como a monogamia não é "natural".

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O fato é que se TODOS os homens se atraíssem por mulheres, haveria muito mais competição entre os machos. Igualmente, se todos fossem heterossexuais e tivesse uma mulher para cada homem, se uma dessas mulheres ficasse doente e morresse, o seu homem correspondente nunca mais teria fêmeas disponíveis. A homossexualidade, portanto, parece ter um relativo papel de estabilidade do bando sapiens.

O autor do "Sapiens" também aborda a importância que tem a figura do macho-alfa em algumas espécies de bandos de símios. Entre a espécie sapiens, a figura do macho-alfa ainda exerce grande fascínio na proteção do bando. Não é à toa que líderes facistas vira e mexe dão o ar da graça. Quando um grupo de políticos cria a ideia de que o bando está ameaçado por elementos externos ao grupo - os homossexuais, os judeus, os imigrantes, os ciganos, os mouros etc - ele se coloca como o salvador, ou seja, o macho-alfa que vai proteger o bando.

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Não me espanta o fato de tanta gente votar em Bolsonaro. Antropologicamente, o tom da fala dele, bem como a natureza de seu discurso, despertam nas pessoas instintos mais primitivos de proteção ao bando, como a eliminação de bandidos, por exemplo.

A figura do macho-alfa, convenhamos, também exerce um fascínio sexual bastante particular no imaginário de muitos gays. Nesse universo, relações de dominação e poder exercem um poder de atratividade. Igualmente, muitos homens "alfa" também possui uma particular atração pela figura do "viado", seja em termos de atração sexual, ou em termos de agressividade.

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Outra questão também é que frequentemente muitos machos-alfa têm de provar sua força perante o grupo. A agressividade contra membros mais fracos podem ser rituais de legitimação dessa masculinidade, algo muito parecido com o que acontece em muitos lugares do mundo em que bando de homens-animais caçam LGBTs em boates só pelo prazer animalesco de reforçar sua própria masculinidade.

Essa relação animal que existe na antropologia humana também explicaria a homofobia. Na medida em que um bando precisa ser forte para guerrear contra inimigos e cada homem precisa deixar descendentes para aumentar o exército e a força do bando, homens afeminados ou pessoas trans são excluídas do bando pois não podem contribuir de nenhuma forma com o bando.

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Não quero com isso, reforçar a homofobia como natural e tampouco legitimá-la sob o manto de um argumento científico. Antes, quero mostrar que a homofobia se trata de um comportamento animalesco e associado a instintos primitivos. Do ponto de vista evolutivo, devemos levar em consideração também o peso da cultura humana, dos mitos criados e das relações de sociabilidade que acontecem.

O autor de "Sapiens" afirma que em algum momento, antes da Revolução Agrícola, o homem passou pela "Revolução Cognitiva", que fez com que seu cérebro desenvolvesse, que ele criasse ideias abstratas e até metafísicas capazes de unir o grupo. Certos instintos, no entanto, permanecem, em parte, no fundo de nossa psiqué e vêm à tona em determinadas situações. A homofobia, portanto, é coisa de gente primitiva. 

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Convém lembrar que devemos ter o cuidado com esses argumentos biologicistas que procuram legitimar a violência e a exclusão dos LGBTs. Na História do homem também teve situações em que o bando humano criou funções para essas pessoas, como cargos ritualísticos, função de criar as crianças, enquanto homens viris caçavam e mulheres cuidavam da comida.

Há também outras questões que podem ser aventadas. Num mundo em que os homens saiam para caçar, dois homens que mantivessem laços afetivos, sexuais e de solidariedade e fossem literalmente, um casal, poderiam defender-se mutuamente em situações de perigo, exatamente como acontecia com a camaradagem entre homens nos exércitos Espartanos. Os amantes se defendiam com muito mais afinco. 

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Do ponto de vista rosacruz, a linha de pensamento que tendo a seguir, o homem não é apenas sua parte física, mas também possui uma alma e um dos fundamentos da evolução não é tão somente uma evolução biológica, mas o despertar para essa natureza divina que existe em nós. É quando o homem se torna menos animal e mais espiritual. 

Essa visão rosacruz possui uma série de nuances e questionamentos possíveis e não pretendo me aprofundar nisso. Só ressalto que sob o ponto de vista rosacruz, a evolução da consciência precede a evolução física do homem. Em outras palavras, as questões físicas dos seres humanos são moldadas de acordo com a evolução espiritual. Quer você concorde com isso ou não, estou apenas apresentando um ponto de vista.

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Por fim, o tema das homossexualidades possui diversos pontos possíveis de abordagem. E associar essa questão com a vida do ser humano pré-histórico me parece um exercício fascinante. Quando alguns heterossexuais falam que gostam dos gays porque sobra mais mulher, o fato é que pode haver uma verdade profunda nessa frase. 

E vocês, o que tem a dizer sobre isso?

Amor e Paz

Um comentário:

  1. Nossa,muito bem aprofundado seu post, de fato, a sexualidade humana, é algo que, digamos não era pra ser questionada, vi tópicos que bateram de frente com meus pensamentos nota 10

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