sábado, 3 de dezembro de 2016

Quando os oprimidos aceitam sua condição - a utopia LGBT

Quando eu era adolescente, ouvia na escola os professores chamarem as pessoas de alienados e aquilo me deixava bastante pensativo. O conceito de alienado é polissêmico. Num marxismo mais histórico, o termo significava o trabalhador que era alienado dos seus meios de produção a partir da Revolução Industrial. Modernamente, no entanto, ele passou a ser sinônimo de ignorante. A alienação deixou de ser física e passou a ser uma alienação mental. Cabe ressaltar que a palavra tem a mesma raiz de alienígena, que significa literalmente estrangeiro. É como se o alienado fosse um estrangeiro num país que não é dele e que nada conhece.

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Durante muito tempo eu trabalhava com o conceito de alienado para ler o mundo e taxar os outros. Foi preciso tempo, no entanto, até perceber que ele é um pouco arrogante. É bem verdade que existe muitas pessoas que são completamente ignorantes em assuntos de política, economia, partidos etc. No entanto, por mais estudados que sejamos, sempre seremos alienados neste ou naquele assunto.

Assim, muitos nos julgarão alienados na mesma facilidade com que atribuímos essa pecha aos outros tão facilmente, dependendo do contexto em que estamos. Isso sem contar que mesmo o mais alienado dos ignorantes, filosoficamente, ele também tem algo a dizer; também tem seus sentimentos e reflexões, por menos polidas que sejam. Sempre cabe-nos ouvir o outro e explicar, conversar, ou simplesmente aceitar que nem todos terão o mesmo nível de intelectualidade do que nós.

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O tempo passou e o conceito de alienado anda meio demodê. Hoje em dia, a nova moda intelectual é chamar de oprimidos. A célebre frase de Paulo Freire "quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor", parece dar um novo norte em como as pessoas inteligentes e educadas taxam os outros que não seguem as mesmas linhas de pensamento delas. É quase como se todo mundo que não pensasse exatamente da mesma forma que x ou y, fosse, no fundo, um oprimido querendo ser opressor.

Não vou entrar no mérito sobre se é certo ou errado pensar assim. No entanto, gostaria de chamar a atenção para um fato muito específico - o da relação dos LGBTs com a alienação ou a opressão. Sempre me chocou o fato de que muitos LGBTs não estão nem aí para a política. Um gay já me disse que ele está mais preocupado com as pessoas que têm fome do que com a questão gay. Outro ainda me disse que votaria no bispo Crivella porque ele iria ajudar a comunidade do rapaz. Uma lésbica já me disse que não aceita a existência das pessoas trans porque não gostam do extremismo de mudar o corpo. Um amigo gay disse na minha frente que eu me preocupo demais com a questão LGBT e a espiritualidade.

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A tentação para chamar essas pessoas de alienadas ou de micro-opressoras é grande. No entanto, hoje vejo a questão de uma forma pouco mais nuançada. Do meu ponto de vista, as pessoas parecem alienadas porque elas simplesmente têm outras preocupações na vida. A questão que se coloca é: isso é errado?

Hoje em dia, não sei. Não sei se dá para ler toda a complexidade da existência humana nessa leitura rasa de "oprimido querendo ser opressor". Acho que pessoas são apenas pessoas. O que não significa, naturalmente, naturalizar comportamentos discriminatórios e excludentes. Muito pelo contrário! Quando vemos um negro homofóbico, uma mulher classista, um LGBT racista ou um nordestino xenófobo, há de se colocar argumentos de contraponto ao pensamento dessas pessoas. No entanto, eu me pergunto: será que as pessoas devem realmente ser perfeitas? Será que chegaremos algum dia a um mundo onde não exista machismo, racismo, LGBTfobia, xenofobia etc? Será que esse ideal é correto ou sequer alcançável?

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Acredito que um mundo ideal deve estar no nosso horizonte, mas isso deve ser contrabalançado com o entendimento de que a vida é cheia de curvas e nuances. Assim, hoje eu aceito que as pessoas são simplesmente diferentes. No entanto, por mais que você seja LGBT e não se preocupe exatamente com essas e outras questões, há de se tê-las em algum ponto de nossas vidas, ainda que a causa LGBT não seja o foco principal. Não dá para simplesmente nos alienarmos dela achando que não temos responsabilidade alguma no combate à LGBTfobia. Há pessoas que lutam mais ativamente pelas causas x ou y e há pessoas que têm essas mesmas causas como secundárias, mesmo pertencendo ao universo x ou y. O que não dá é para se alienar completamente. Assim, o meio termo é sempre saudável.

E vocês, o que pensam sobre isso?

Amor e Paz

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